Tragédia e responsabilidade
20 | Fevereiro | 2012
João Marques de Almeida
 

Diário Económico, 20|Fevereiro|2012

Todos andam à procura de culpados. Quem são os “culpados” da crise? São os mercados e o Estado social, os “neo-liberais” e os socialistas, os bancos e os sindicatos, a “Europa” e as nações, os governos e as oposições, a Alemanha e a Grécia.

No meio das discussões, o clima político está cada vez mais envenenado, radical e todos ficam a perder. As décadas de afluência fácil levaram ao esquecimento de uma verdade que nunca deveria desaparecer da nossa memória: há na política um elemento de tragédia. Esperemos que a sua fúria não seja simétrica ao nível do esquecimento. Na Europa, hoje, todos somos culpados, todos somos vítimas, e cada um acredita na sua razão, como se fosse a mais importante de todas. Os mais liberais defendem, acertadamente, que se deve privilegiar a iniciativa e os investimentos privados; e os mais sociais consideram justamente que o Estado é indispensável para proteger os mais desfavorecidos. Os alemães fazem muito bem em insistir no rigor e os gregos devem recordar que não se pode construir uma Europa ambiciosa sem solidariedade. Eis o elemento trágico da actual situação política europeia: torna-se cada vez mais difícil ajustar as várias razões. Neste contexto, para o qual não estávamos intelectualmente preparados, vale a pena reler aqueles que sobreviveram a tempos trágicos. Isaiah Berlin, cuja família, obrigada a fugir do terror revolucionário Bolchevique, sobreviveu à tragédia, nunca desistiu de avisar os seus contemporâneos da próspera Oxford que por vezes as diferentes concepções do bem são irreconciliáveis. Hannah Arendt, vítima do terror Nazi, explicou o modo como os piores tempos podem transformar cidadãos pacatos e normais em cúmplices do mal. Há uma conclusão inevitável das Origens do Totalitarismo: a distinção entre o culpado e a vítima (muitas vezes a mesma pessoa) é demasiado ténue, especialmente durante os tempos trágicos. Raymond Aron, que testemunhou a subida de Hitler ao poder e passou a guerra exilado em Londres, dedicou grande parte da sua vida pública a apelar ao dever de responsabilidade por parte dos intelectuais. Vale a pena ler um pequeno livro de Tony Judt (outro a quem a tragédia visitou, e mais do que uma vez) sobre Blum, Camus e Aron, The Burden of Responsibility. No caso dos dois últimos (os intelectuais do triunvirato), Judt mostra como o sentido de responsabilidade sempre os acompanhou. Infelizmente, alguns dos nossos cronistas ainda não entenderam as suas obrigações perante a responsabilidade. Nas suas memórias, Aron conta uma conversa que teve com o então MNE francês logo após Hitler ter chegado ao poder. Saiu do encontro com duas certezas. É mais fácil criticar do que apresentar alternativas viáveis. E durante as crises a responsabilidade não se exige apenas a quem exerce cargos públicos. Também se aplica a quem avalia a vida política. Chegou o momento de dirigir aos cronistas de hoje a questão que tanto gostam de colocar aos políticos: estarão à altura dos tempos em que vivemos? Escrever em público é um exercício de responsabilidade, não é um acto de vaidade.