Ano de eleições
30 | Janeiro | 2012
João Marques de Almeida
 

Diário Económico, 30|Janeiro|2012

2012 é um ano com três eleições presidenciais muito importantes: por ordem cronológica, na Rússia, em França e nos Estados Unidos.

Os resultados podem alterar e decidir questões políticas, económicas e diplomáticas essenciais para o futuro da Europa e do mundo. Na Rússia, não estará em causa a vitória de Putin, mas está em jogo a legitimidade do "autoritarismo consentido" do regime. Putin e os seus aliados governam o país de um modo autoritário, mas em troca não interferem na vida privada dos russos e criam condições para o aumento da prosperidade. A renovação da legitimidade deste contrato político exige largas maiorias eleitorais. Com menos de 50% dos votos na última eleição parlamentar, a Rússia Unida não foi capaz de o fazer. Em Março, Putin enfrenta um teste que poderá ter consequências profundas para o futuro do país. Se ganhar com uma forte maioria, o que não é impossível, mas não é um dado adquirido, o autoritarismo consentido ficará renovado. Se tiver uma vitória curta (pouco mais de 50%), e especialmente se for obrigado a uma segunda volta, a legitimidade do regime estará em causa, e terá que ser renegociado. Em França, o candidato socialista, François Hollande, está à frente nas sondagens, o que de resto está a deixar o centro-direita um pouco desorientado. A menos de três meses da primeira volta, Sarkozy ainda não anunciou formalmente que se vai recandidatar, o que é no mínimo estranho. E começa a originar especulações sobre uma eventual não-candidatura do actual Presidente. De qualquer modo, a recandidatura é ainda o cenário mais provável. Se Sarkozy ganhar (nem que seja por um voto), ficará com uma posição fortalecida, e o PS francês iniciará a maior crise da sua história. Uma vitória de Hollande alterará a situação política na Europa. Neste momento, é impossível prever, por exemplo, o modo como afectaria a relação bilateral com a Alemanha. Haveria em equilíbrio salutar entre duas culturas económicas distintas, no qual acabaria por imperar o pragmatismo em ambos os lados? Há quem acredite que sim. Mas também há quem antecipe conflitos que poderiam levar ao agravamento da situação económica e financeira na Europa. Uma coisa é certa: o resultado das eleições francesas influenciará, e muito, a política europeia.

Nos Estados Unidos, Obama iniciou a sua campanha, na semana passada, com o discurso do Estado da União. Foi um exercício politicamente forte, dedicado quase por inteiro à economia e à situação interna, e onde aparecem definidos os argumentos centrais para a reeleição. Do lado republicano, com a vitória de Gingrich na Carolina do Sul, tudo está em aberto. Se vencer amanhã na Florida, como indicam algumas sondagens, teremos umas primárias disputadas até ao fim, o que poderá favorecer Obama. Há duas percepções que se começam a consolidar. Tendo em conta o estado em que encontrou a União e com uma recuperação lenta, mas progressiva, da economia, Obama neste momento merece ganhar. Entre o radicalismo e as hesitações, o partido republicano tem mostrado que não está preparado para eleger um Presidente. E há uma velha máxima em democracia: quando não há alternativa, ganha quem está no poder.