Discurso do Cairo II
19 | Maio | 2011
Bernardo Pires de Lima
 

Diário de Notícias, 19|Maio|2011

Barack Obama fala hoje no Foggy Bottom sobre as revoltas árabes. É um discurso sem margem para adiamento: responde a críticas sobre a sua fraqueza estratégica para o Norte de África e Médio Oriente e aproveita o impacto do desapareci- mento de Ben Laden. Esta deve ser mesmo uma das linhas de argumentação mais exploradas: demonstrar que as aspirações das ruas árabes são inspiradas nos valores representados pela América e não pela jihad de Ben Laden. É isso que cria emprego, riqueza e liberdades políticas, ou seja, a base das reivindicações.

Contudo, Obama deve ser cuidadoso ao individualizar os países. Por um lado, assumindo casos mais ou menos bem encaminhados (Tunísia e Egipto) como alvos de investimentos ou perdões de dívida. Por outro, disponibilizando apoios a movimentos que assumam a defesa de eleições justas, abertura económica, relações de vizinhança pacífica ou direitos para as mulheres e minorias. Ora nem todos os revoltosos subscreverão estes princípios. Separar as águas dá a Obama margem para ser selectivo e refugiar-se da crítica, além de reflectir com ri- gor o que de facto tem acontecido. E quando abordar a Síria, Obama não deixará de endurecer posições que forcem outras potências a acompanhá-lo, apontando ainda baterias a Teerão co- mo patrono de Damasco.

Por fim, tem de abordar o impasse entre Israel e Pales- tina. Não sendo o grosso do discurso - teria um protagonismo que as revoltas não lhe deram -, obriga Obama a difícil equilíbrio: vontade em apelar ao respeito pelas fronteiras de 1967 na véspera de Netanyahu aterrar em Washington. De duas coisas Obama tem consciência. Não se ganham eleições nos EUA com estratégias para o Médio Oriente. Mas se esta for bem feita, pode ser o que Washington precisa para se manter como grande potência na região. É sobretudo disto que estamos a falar.