Malabo na CPLP, por supuesto!
26 | Julho | 2010
Manuel Ennes Ferreira
 

Expresso, 17|Julho|2010

Em março de 2007 escrevi duas crónicas dirigidas ao meu amigo Fernandian Ngoumba a propósito da sua estupefação pela entrada da Guiné-Equatorial na CPLP como membro associado. Infelizmente hoje já não poderá receber esta missiva quando o cenário é a passagem para membro efetivo. Pela primeira vez na história desta instituição há um clamor vindo das... bases! Existem duas formas de olhar para o assunto. Por um lado, uma análise mais institucional, de Estado, de ditos interesses estratégicos, sejam económicos ou políticos. É esse o entendimento que os governos transmitem. A última novidade é a argumentação de que se a Ucrânia, a Suazilândia, a Austrália, a Indonésia e o Luxemburgo querem ser associados é porque a CPLP está no bom caminho. Mas, por outro lado, a CPLP é repetidamente dita e reafirmada como sendo uma comunidade de 'afetos'. Afetos são as pessoas, a sociedade civil. E, que se saiba, os ditos ainda não têm cotação em bolsa, ao contrário do petróleo e do gás natural. E do modo como estão a ser tratados é mais uma espécie de junk bonds! Democracia e direitos humanos, que estão inscritos nos estatutos, devem assim ser interpretados como uma questão 'dinâmica...'. A sociedade civil tem toda a razão para dizer que está zangada e se sente enganada. São dois planos distintos. Mas analisando o caso mais friamente existem várias razões pelas quais se deve dar o 'sim' à Guiné-Equatorial:

1) porque as viagens de avião ficarão mais baratas, dado que se evitará voar por Madrid;

2) porque se os EUA recolocaram em Malabo o seu embaixador para assim vigiar melhor o respeito pelos direitos humanos, quem é a CPLP para não imitar o gesto?;

3) porque, não sejamos anjinhos, aquilo é terra de oportunidades para o sector energético e da construção civil (não esquecer que o CAN 2012 será aqui e no Gabão), e se não estivermos nós estarão outros, como disse despudoradamente há dias o Governo brasileiro (a propósito, Lula não vai à Cimeira em Luanda, elucidativo...);

4) porque é mais um escape para os desempregados e a emigração portuguesa;

5) porque a democracia avança: o atual presidente deu um golpe de Estado em 1979 e fuzilou o tio deposto, reprime e organiza farsas eleitorais, mas o futuro democrático é risonho visto que nas eleições presidenciais de Novembro de 2009 já só teve 96,7% dos votos;

6) porque os chineses estão lá e é preciso barrar o caminho ao "perigo amarelo";

7) porque se Angola o quiser os outros também o quererão;

8) e o mais importante, a gratidão do Governo local para com Portugal espelhado no seu hino nacional: "Tras dos siglos de estar sometidos/Bajo la dominación colonial/Cantemos Libertad!" Ou seja: a presença portuguesa entre 1471 e 1778 não faz parte oficialmente da colonização do país. É só quando o Conde de Arjelejo toma posse dos territórios em nome de Espanha, há dois séculos, que conta. E isto deve ser reconhecido e pago!