Douce France
16 | Julho | 2010
José Cutileiro
 

Expresso, 10|Julho|2010

"As chatices voam em esquadrilha", dizia Chirac que não foi um grande homem de Estado mas sabe da poda e não armava ao pingarelho. Entre 1995 e 2007 ofereceu ao mundo uma presidência da República menos arrogante e menos monárquica do que a do seu predecessor Mitterrand e a do seu sucessor Sarkozy - cada um deles espantado de não dar com a cara de Luís XIV ao ver-se ao espelho.

Mitterrand navegou 14 anos acima de intrigas e conspirações num hovercraft altivo de poder praticando a ambiguidade com cinismo permanente (proibiu o médico de revelar que tinha um cancro da próstata desde o dia da eleição; quando a verdade rompeu, a República expulsou o clínico da Ordem e tirou-lhe a Legião de Honra, já Mitterand tinha morrido).

Sarkozy vai a todas. Instintos de cão raivoso toldam-lhe a visão reformista. O voluntarismo levou-o até ao Eliseu, mas a entradas de leão têm sucedido tantas saídas de sendeiro que quase ninguém já acredita que em 2012 os franceses lhe dêem segundo mandato. É pena, porque (como diria Churchill) Sarkozy é o pior político francês tirando todos os outros. O Partido Socialista, especializado em derrotas presidenciais desde 1995 e parlamentares desde 2002, não consegue raspar a demão de marxismo-leninismo com que besuntou o jacobinismo nacional, tem muitos valetes mas nenhum ás, é chefiado pela paladina da semana de 35 horas e, insistindo em não entender o mundo, opõe-se à passagem da idade da reforma dos 60 para os 62 anos. O centro foi esmagado por Sarkozy que fagocitou metade dele. A extrema-direita reganha espaço que Sarkozy lhe tirara, mas a União Europeia fez passar de moda golpes militares e, nas urnas, os franceses não a deixarão ir além de parceiro menor numa eventual coligação conservadora. A extrema-esquerda obtém sempre um número absurdamente grande de votos mas só dá mesmo para mandar cantar cegos.

Ficam alternativas a Sarkozy na direita tradicional, mas Villepin, seu arqui-rival, vive em ilusão gaulista, no sentido mais estonteado do termo, os outros barões - no Governo, na Assembleia, alhures - têm medo de dar o chefe por morto e há um problema de fundo pior. Sustentada por escândalos sucessivos, paira sobre a direita francesa uma sombria presunção de corrupção - se a esquerda tem nostalgia de Estaline, a direita tem nostalgia de Guizot ("Enriquecei!" - exortou o tribuno). Daqui a 2012 voarão sobre Sarkozy muitas mais esquadrilhas de chatices e se ele deixar o poder cair à rua não se vê quem possa apanhá-lo com pulso e cabeça.

Uma França confusa e mal governada, incapaz de equilibrar a ressurreição da Alemanha, não ajudaria a Europa a lutar pela vida num mundo onde já não há entradas de favor. (Mesmo quando tudo ia bem os parceiros sentiam às vezes a França na União como Lord Byron sentia as mulheres: seres admiráveis, disse o poeta, sem os quais não se pode viver e com os quais também não). Mas talvez eu esteja enganado e a crise faça jorrar em Paris cornucópias de decência e bom senso.