E Portugal muda-se para Angola
12 | Julho | 2010
Manuel Ennes Ferreira
 

Expresso, 3|Julho|2010

Dentro de duas semanas, Portugal muda-se para Angola. De uma assentada Presidente da República, primeiro-ministro, ministro dos Negócios Estrangeiros e o PIB nacional vão assentar arraiais em Luanda. Uma conjunção quase astrológica - a visita oficial a Angola de Cavaco Silva, a Cimeira da CPLP e a realização da FILDA - esvaziará o país. Parece que o ministro da Defesa ficará em Lisboa, não se vá dar o caso dos espanhóis, entusiasmados com a vitória futebolística, pensarem noutras aventuras. De 19 a 21 de julho, o Presidente português fará a sua visita oficial a convite do homólogo angolano. No dia 20, começará a FILDA. Esta feira tem tido sempre nas empresas portuguesas o principal e esmagador protagonista. Ora dada a feliz coincidência atrás referida, este ano o país convidado foi... Portugal. É assim uma espécie de pleonasmo... Adiante. Espera-se que Cavaco Silva esteja presente. Dois dias depois, isto é, dia 22, entra em cena a CPLP. Começa com a 15ª Reunião Ordinária do Conselho de Ministros (os ministros dos Negócios Estrangeiros) e Luís Amado aparecerá. Dia 23 decorrerá a 8ª Conferência de Chefes de Estado e de Governo. Sendo usual Portugal fazer-se representar pelo Presidente da República e pelo primeiro-ministro, José Sócrates já lá estará. Há, assim, a possibilidade de o encontro semanal da quinta-feira entre Belém e São Bento se realizar no Mussulo. E aqui o PIB nacional irá tostar, metaforicamente falando, já que a Angola irá uma comitiva oficial de 70 empresários mais aqueles por conta própria. É uma semana em cheio, onde vários dossiês uma vez mais serão relembrados: a questão dos vistos, da dupla tributação, da garantia recíproca dos investimentos, das dívidas em atraso e dos professores! Dos professores! Esses coitados, que na sequência de uma inspiração de José Sócrates há uns anos em Angola anunciou a ida de 200 deles e que não passam de 20. A culpa? Da inspiração? Do Ministério da Educação? Do IPAD? Do Ministério das Finanças? Tanto faz, mas o ridículo é que estando Portugal com a presidência da CPLP e tendo definido como objetivo a difusão da língua portuguesa, a situação do envio de professores seja a referida! Espera-se que Angola, agora que vai receber o testemunho das mãos de Portugal, identifique outra área. Mas há outros assuntos importantes a tratar. Antes do mais a questão do Benfica Stars Fund, onde investidores angolanos têm uma posição de destaque. É isto uma ameaça a um centro de decisão nacional? Em segundo lugar, a quebra de reciprocidade. O Belenenses recusou capital angolano. Que fará agora Angola ao pedido de entrada de portugueses no capital dos clubes de futebol da 1ª divisão do Girabola, o FC Bravos do Maquis (Moxico) e o Sagrada Esperança (Lunda-Norte), conhecidas regiões produtoras de diamantes em Angola? E, finalmente, para quando a PT ficar sem a Vivo: já está preparada a cadeira para os novos administradores representantes do futuro capital angolano? Estas, sim, são as verdadeiras makas que há que resolver.