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Patriotas europeus
09 | Julho | 2010
José Cutileiro |
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Expresso, 3|Julho|2010
Tenho um neto holandês, nado e criado na cidade de Groningen, que fez 6 anos em Março e segue pela televisão o Campeonato do Mundo de Futebol na África do Sul. Quando lhe aparecia no ecrã país de que desconhecia a existência, procurava-o num atlas e, se fosse na Europa, era por ele. Se não fosse e jogasse contra um país europeu, era contra ele. De seu livre alvedrio, sem perguntar nada a pai ou mãe nem dar explicações, afirmou tacitamente que devia lealdade à Europa.
Não conheço os programas de ensino infantil e primário na Holanda, mas lembro-me de que em 2005 os holandeses disseram não à Constituição europeia e não consta que se tivessem entretanto arrependido. São muito senhores do seu nariz porque, afinal de contas, se Deus fez o mundo, quem fez a Holanda foram os holandeses. São idealistas sensatos: segundo um ministro dos estrangeiros que tiveram há poucos anos, o lema da política externa do país é "Paz e Lucros". Parecem, diria o Senhor Sousa Neto, um povo essencialmente prático.
Por estas razões considerei sinal de esperança o patriotismo europeu do meu neto Aymon, erguido a contra-pelo dos nacionalismos eriçados de hoje e mais espontâneo do que o patriotismo europeu dum major da Bundeswehr que trabalhou comigo há 15 anos em Bruxelas e me contou indignado que só ele a mulher e os filhos se tinham levantado da bancada armada na Grand Place durante uma festa dominical quando no coreto a banda tocara o Hino da Europa (a "Ode à Alegria" da 9ª de Beethoven). Os alemães eram patriotas europeus porque, postos de castigo em 1945, tinham vergonha de serem patriotas alemães. O castigo acabou e desconfio que já não haja major na Bundeswehr que se ponha em sentido ao som da "Ode à Alegria".
Se de escolas holandesas saírem crianças convencidas de que cabe um quinhão de pátria à União Europeia (a construção política mais contra-intuitiva da história da Europa) talvez não esteja tudo perdido. O euro terá mais futuro do que o que lhe querem dar nostálgicos de marco & companhia, com desvalorizações competitivas a arruinarem uns e outros. A União resistirá a federalistas amargados porque nunca mais há governo europeu; a economistas que, porque usam números, julgam que praticam uma ciência exacta mas se dividem entre os que acham que só austeridade salvará o mundo e os que acham que só mais despesa nos fará sair da crise; a nacionalistas tribais incapazes de olharem para o mapa-mundo como o Aymon olha.
Entretanto, depois do G20 da esperança no ano passado em Pittsburg, veio o G20 quase da realidade no mês passado em Toronto. Quase, porque não fez doer: a realidade é quando a gente se aleija e essa virá com o G20 de Novembro em Seul. Muitos passarão a falar grosso e o dia virá em que, para se dar ao respeito, a Europa terá de ter outra vez canhões, capacidade de os usar se for preciso e patriotas da nova variedade europeia revelada pelo meu neto diante do futebol. (Dou-a por tendência e não por capricho).
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