O urgente e o importante
05 | Julho | 2010
José Cutileiro
 

Expresso, 26|Junho|2010

Lema visto há anos na parede do escritório de um PDG: "Tratar do importante antes de tratar do urgente". Excepções impõem-se - se não não seriam precisos bombeiros - mas no geral o princípio é bom embora a gente se esqueça muitas vezes dele.
Sobretudo em tempo como este, em que a fogueira económica e financeira obrigou homens de estado europeus a desenrolarem mangueiras e armarem escadas magirus.
Estamos a chegar ao rescaldo, com a Alemanha a impor rigor fiscal a outros Estados-membros da União (não é evidente: na Maputo de 1980 as cúpulas da Frelimo pregavam em vão às bases "Aceitemos o princípio da prestação de contas").
Como os alemães passaram décadas a sustentar vícios dos outros, não se lhes pode levar a mal a urgência. Mas vale a pena dar uma vista de olhos a mais coisas importantes, meio esquecidas durante o combate ao incêndio.
Por exemplo, à questão da Turquia. Ancara tem estado na berlinda porque nove cidadãos turcos numa flotilha que tentava romper o bloqueio de Gaza foram assassinados no alto-mar por tropas especiais israelitas, incompetentes na resposta à provocação que a própria Turquia ajudara a armar, e ameaça romper de vez com Israel de quem era firme (e quase único) aliado no Médio Oriente.
Isto acontece depois de ter negado a George Bush parte do apoio que os americanos pediam para a campanha do Iraque e de dificuldades com o processo de adesão à União Europeia devidas a obstáculos negociais levantados constantemente por Chipre e a retórica hostil à inclusão da Turquia na União Europeia de Nicolas Sarkozy e Angela Merkel.
Entretanto, Ancara passou a desempenhar papel diplomático em pendências da região mais extenso e influente do que costumava ser o seu de há décadas para cá e tem gosto em afirmar-se potência regional.
Na panela de pressão da Ásia central, onde estados órfãos da União Soviética procuram, nem sempre com sucesso, sobreviver em paz, Rússia e China, quando gizam os seus planos de poder e contrapoder, têm agora de contar com a concorrência da Turquia.
Tudo isto anima na população do país revivalismo nostálgico do Império Otomano - há momentos assim na história dos povos - que poderá ter alguns inconvenientes práticos - uma coisa é o sonho e outra a realidade - mas conforta o ego.
Quanto à Europa, por enquanto nada está perdido. A afirmação de poder turco no Médio Oriente e na Ásia Central, bem como a assunção clara da presença do Islão quer na Turquia profunda quer na teia diplomática tecida por Ancara, ambas caras ao primeiro-ministro Erdogan e ao seu partido, iriam juntar-se a outros trunfos - mão-de-obra jovem; força militar; geografia - para tornarem ainda mais valiosa para todos uma eventual adesão da Turquia à União Europeia, pela qual o Governo turco continua a bater-se sem dar sinais de menos determinação. Até agora.
Se alguns países europeus insistirem em arrastar os pés a Turquia poderá um dia fartar-se de esperar. Para perda e dano graves da União.