| |
Occasional Paper n.º 48 Cheonan e a Lógica Norte-Coreana
07 | Junho | 2010
Nuno Santiago de Magalhães,
Universidade de Cambridge |
| |
|
Vamos supor que o afundamento da corveta sul-coreana Cheonan resultou de uma ordem de Kim Jong-il ou de membros da elite militar. Qual seria a lógica norte-coreana? Certamente que uma retaliação militar dos EUA e da Coreia do Sul é improvável e que a agastada China não vai abandonar definitivamente Pyongyang, mas ainda assim a Coreia do Norte terá de suportar pesados custos políticos e económicos a curto prazo, o que parece indicar que estamos perante um acto ilógico, sem vantagens para os seus actores. No entanto, contrariando essa percepção, existem pelo menos três cenários no âmbito dos quais os responsáveis pelo afundamento poderiam obter benefícios. Ou seja, tendo em conta os objectivos (independentemente do seu valor moral) e o ambiente estratégico desses responsáveis, estaríamos perante uma acção lógica.
Em primeiro lugar, Kim poderia ter autorizado o afundamento com o objectivo de criar um contexto de união nacional em torno da sua mítica figura, com o Norte a vitimizar-se em relação às “falsas acusações” de que seria alvo. O Major-General Pak Rim-su poderá ter desempenhado esse papel de vitimização na conferência de imprensa de 28 de Maio. Este primeiro cenário aumentaria as probabilidades de o filho mais novo do líder norte-coreano, Kim Jong-un, suceder ao pai, apesar da sua tenra idade e da falta de experiência política relevante.
No segundo cenário, o afundamento teria sido provocado à revelia de Kim por militares norte-coreanos que procurariam fortalecer a sua posição doméstica em detrimento de Kim Jong-il e Jong-un. O presidente sul-coreano, Lee Myung-bak, referiu que a Coreia do Norte devia “punir os responsáveis pelo ataque”, palavras que podem indicar que este segundo cenário não é improvável.
No terceiro cenário, de chantagem internacional, Kim usaria a táctica de aparentar ser irracionalmente imprevisível para relembrar os vizinhos e os EUA que não existirá estabilidade regional enquanto a Coreia do Norte for ostracizada. Aliás, utilizando frequentemente esta táctica no pós-Guerra Fria, Pyongyang já conseguiu extrair negocialmente benefícios económicos e políticos a médio prazo, após a poeira assentar. Por exemplo, conseguiu-o em 2005 (declaração de posse de armas nucleares a 10 de Fevereiro, seguida de um acordo a 19 de Setembro, no âmbito das Conversações a Seis) e em 2007 (teste nuclear a 9 de Outubro de 2006, seguido de um acordo a 13 de Fevereiro de 2007, nas Conversações a Seis).
Devido ao secretismo dos processos de decisão política e militar em Pyongyang, não é prudente seleccionar um dos cenários como sendo o mais provável. Porém, podemos tirar duas conclusões. Em primeiro lugar, se de facto nem o afundamento da Cheonan foi acidental nem a acusação contra Pyongyang foi fabricada, é improvável que esse afundamento tenha resultado de um acto ilógico. Por último, tendo em conta que a Coreia do Norte se sujeita a pesados custos a curto prazo, qualquer dos três referidos cenários de comportamento lógico reflecte uma situação de fragilidade do país, seja em relação à dinastia Kim, à economia nacional, ou à sua posição estratégica internacional.
Ficheiro PDF
|