O fim de uma era
03 | Maio | 2010
Bernardo Pires de Lima
 

in Diário de Notícias, 3|Maio|2010

A actual campanha eleitoral na Grã-Bretanha põe fim a dois mitos políticos: nem Gordon Brown era tão mau como se dizia nem David Cameron tão bom como se pensou. Tanto um como o outro mostraram fragilidades inesperadas nos debates televisivos e algumas propostas políticas menos estruturadas do que muitos observadores estavam à espera. Ambos sabiam que os círculos eleitorais mais concorridos são centrados nos dois principais partidos e foi sobre essa tensão que promoveram o confronto político. Até que o inesperado lhes bateu à porta: o discurso de um outsider ao tradicional bipartidarismo.

O líder dos liberais-democratas, Nick Clegg, beneficiou de dois importantes factores para se tornar na chave desta campanha e no pivot de qualquer solução governativa. Primeiro, assumiu-se como anti-sistémico, sem verdadeiramente o ser. Ou seja, conseguiu promover-se como alternativa ao rotativismo entre trabalhistas e conservadores, enquanto força regeneradora do sistema representativo e da moralidade da classe política, ao mesmo que evitou assumir-se como depositante do voto de protesto das franjas do eleitorado. Reparem que o seu jogo é feito ao centro - na tradição social-democrata que lhe deu origem, em inícios dos anos 80 -, sabendo que nuns círculos uninominais a conquista de votos se faz à esquerda e que noutros se fará em luta directa com a direita.

Nick Clegg aposta tudo na reforma do sistema eleitoral - quer alterá-lo para proporcional e dar início à eleição da Câmara dos Lordes - e na moralidade e decência do exercício dos cargos políticos. Beneficia com os escândalos que assolaram no último ano deputados conservadores e trabalhistas e com a telegenia que causou o efeito surpresa avassalador nos media e no público. Os trabalhistas, ao concederem--lhe palco mediático, tinham consciência da sua função: retirar espaço à também jovem liderança de Cameron, evitando que este chegasse à maioria absoluta. O estado da arte torna absolutamente irrepetível um governo maioritário e remete para o domínio do incrível o facto de serem os trabalhistas de Brown (em terceiro nas sondagens) quem mais mandatos parlamentares poderá conquistar.

Olhemos para um quadro pós- -eleitoral em que o partido conservador seja o mais votado, embora em segundo no número de deputados; os liberais-democratas em segundo na escolha eleitoral global, mas com menos deputados que trabalhistas e tories; e o Labour com a votação menos expressiva, mas com o maior número de mandatos, capaz de ser convidado a chefiar um governo de coligação com os liberais. Se o cenário for real, olharemos para o início do fim do sistema eleitoral britânico tal como o conhecemos, veremos abrir-se a caça às bruxas entre os conservadores e recuperaremos o cepticismo em volta dos benefícios dos círculos uninominais. Esta eleição será, por isso, marcante para os britânicos e merecedora de atenções redobradas por muitos políticos portugueses.