A responsabilidade alemã
07 | Abril | 2010
Bernardo Pires de Lima
 

Jornal i, 7 de Abril

Os dados publicados nos últimos dias sobre compra e venda de armamento no mundo traçam um quadro curioso das actuais tendências. Há, no entanto, um país que salta à vista: a Grécia. Porquê? Primeiro, por continuar no top 5 dos importadores mundiais. Para um país desta dimensão e com os problemas orçamentais conhecidos, não deixa de ser uma posição que levanta algumas questões. Segundo, porque mais de 50% das importações vêm da Alemanha e da França. Ou seja, os dois maiores desbloqueadores da solução grega no Conselho Europeu são também os que mais têm contribuído para a singularidade de Atenas no quadro da NATO: quase 5% do PIB em defesa e o que não só mais gasta com pessoal nesta fatia orçamental como tem maior percentagem de população activa directamente ligada a esta indústria. A própria agência Fitch fez saber que a defesa contribuía para a pouca transparência e credibilidade e que o governo grego tinha também de actuar por aí.

Isto não menospreza a importância dos investimentos em defesa no quadro geopolítico internacional e na opção de sobrevivência política e estratégica europeia. O que questionamos é o nível permanente de investimento grego, sobretudo quando canalizado para a tensão cipriota com a Turquia e não para missões de segurança que deviam ser prioritárias. Terminar este conflito significaria maior racionalidade nos investimentos gregos e um dossiê fechado na adesão turca. Só que há aqui um pormenor: aparentemente, os alemães não querem que isso suceda, uma vez que são ao mesmo tempo os maiores exportadores de defesa para a Grécia e a Turquia. A tensão cipriota acaba por encaixar nos seus objectivos: deixar Ancara à porta e continuar a promover o potencial militar alemão, que cresceu 100% nos últimos cinco anos. É verdade que Berlim não faz mais do que regressar à grande arena política global, mas devemos pedir-lhe que assuma as suas responsabilidades na solução grega.