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Comiseração na política africana
05 | Abril | 2010
Manuel Ennes Ferreira |
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Expresso, 27|Março|2010
Quando em 1978 o presidente de Portugal, Ramalho Eanes, se encontrou em Bissau com Agostinho Neto, na altura Presidente de Angola, procurando desanuviar o pesado ambiente bilateral, deu o mote para outros passos que se seguiriam no tempo. Era então uma questão política, é certo, mas igualmente de conteúdo económico. As ex-colónias portuguesas já eram e a Europa vinha a caminho. Jogar nos dois tabuleiros seria mais seguro e pragmático. Mas as independências criaram alguns traumas difíceis de digerir, aliás para ambos os lados. Não sendo fenómeno específico do caso português, ainda hoje muitas fricções aparecem aqui e ali. Em 2008, por exemplo, ganhou de novo algum mediatismo o pedido de desculpas italiano à Líbia pelo passado colonial, no que será acompanhado de investimentos italianos em infra-estruturas no valor de 5 mil milhões de dólares. Na mesma altura, Marrocos e Argélia verbalizaram querer ser objecto de um gesto semelhante por parte da Espanha e da França, respectivamente. Não há dúvida que as consequências do colonialismo foram devastadores e são um lado negro da história. Conviver com isso não é fácil e exige alguma sensibilidade. Mas uma culpabilização não deve dar lugar a desculpabilizações. África, aqui e ali, dá sinais de querer inverter a penosa situação em que tem estado mergulhada. A nova atenção que desperta internacionalmente fá-la tornar-se terreiro de grande competição externa. Portugal tem tentado não perder o pé. As declarações e périplos mais recentes do ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, apontam para isso. A entrevista que concedeu no início deste ano ao "Público" é realista no que se refere à importância de África e à necessidade de "a acção política externa dever contribuir para o reforço da internacionalização da economia". Até que enfim! Antes dissera, correctamente, que o problema económico português é sério e é "um problema que também diz respeito à política externa". O que resta saber é se esse reconhecimento é suficiente para uma acção coerente e com horizonte alargado ou se, uma vez mais, se fica pela contemplação e auto-elogio. Mas ora estão eufóricos, como se viu pelas declarações à Lusa do mesmo ministro em 28 de Fevereiro afirmando que "Portugal é um gigante na diplomacia africana" e que "em todas as partes do mundo em que ando existe um grande respeito pela importância histórica de Portugal", ora derrapam para a tristeza e a depressão: "só oiço dizer mal de Portugal em Portugal". É assim um comportamento a modos de bipolar. E de facto é uma pena que a 'lei da rolha' ainda não seja decreto-lei. Porque se o fosse, qualquer desajuizado seguiria o ensinamento de um membro do gabinete do primeiro-ministro: "não somos nós, antigos colonizadores, que podemos ir lá dar lições de moral sobre a democracia", por exemplo ("Público", 4 de Agosto de 2008). Percebe-se assim o respeito lá fora até porque um dólar sempre é um dólar!
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