Corajoso e conservador
11 | Dezembro | 2009
Bernardo Pires de Lima
 

Jornal i, 11|Dezembro|2009

Convenhamos que empregar 44 vezes a palavra “guerra” num discurso de aceitação do Prémio Nobel da Paz deve dar azia a muito boa gente. Obama, ao que parece, não se importou e acabou por esboçar, em boa verdade, as linhas da grande estratégia norte-americana para o seu mandato. Com perspectivas encadeadas e dentro de uma moldura que compete ao decisor político e comandante-em-chefe de duas guerras simultâneas.

Por um lado, ao assumir esta condição de alto responsável pelo “estado de guerra”, sublinha um ponto incontornável: é sobre este mundo que tem que tomar decisões, algumas delas desagradáveis, como usar a força unilateralmente se necessário para defender o seu país. Onde é que já ouvimos isto? Certo. George W. Bush. Mas não só. O quadro unilateralista, não sendo uma particularidade da história norte-americana, está em cima de qualquer secretária do inquilino da Casa Branca. E vai continuar a estar. Por outro lado, ao recuperar a justeza de certas intervenções militares, confere um desígnio moral à sua política externa na salvaguarda de direitos e liberdades universais. Vários presidentes o fizeram, mas talvez baste referir os mais recentes: Truman, Reagan ou Clinton. Para Obama, se a segurança internacional deveu muito à liderança dos EUA nos últimos 60 anos e se tal contribuiu para libertar a Europa e outras regiões do mundo dos totalitarismos, tal conduta não deve prescrever. Só assim se chegará a um estádio de paz duradoura e justa, tendencialmente universal. Obama foi corajoso, mas pouco ou nada inovador.