Ultrapassar Lisboa
03 | Outubro | 2009
Bernardo Pires de Lima
 

Jornal i, 3|Outubro|2009

Podem dois referendos sobre a mesma matéria ser tão distintos em apenas catorze meses? Os irlandeses validaram a resposta. Em Junho de 2008, a campanha centrou--se num suposto conteúdo demoníaco do Tratado de Lisboa: liberalização do aborto e eutanásia, militarização permanente, decapitação dos direitos laborais, abusos fiscais. A fraqueza dos seus defensores ajudou à vitória do "não". Um ano depois estes temas foram abandonados e os apoiantes do "sim" prepararam-se para deixar de ser os patinhos feios da União. A sua provável vitória encerra um capítulo europeu, marcado por duras negociações, cedências de última hora e pela ambição assumida por todos: trabalhar sobre outro quadro normativo e político, que enquadre a realidade comunitária na dura luta geopolítica global.
O primeiro desafio é parar com o instinto legislativo por uns bons largos anos. A União não precisa de mais normas, precisa de agilidade, compromissos que não sejam exotéricos e enfrentar sem temor a globalização. Para tal, tem de ter capacidade externa. O segundo desafio é reforçar os laços com os EUA: garante- -se coesão europeia e projecta--se este espaço económico de sucesso nos mercados internacionais. O terceiro desafio é criar riqueza. A benevolência dos modelos sociais europeus está em declínio e das duas uma: ou se inverte a depressão demográfica e produtiva ou a falência vai bater-nos à porta sem pré-aviso.