Aprontar a Europa
12 | Setembro | 2009
José Cutileiro
 

Expresso, 12|Setembro|2009

Na próxima quarta-feira em Estrasburgo os deputados do Parlamento Europeu deverão confirmar em eleição a escolha unânime dos chefes de Estado e governo dos 27 Estados-membros de José Manuel Durão Barroso para presidente da Comissão Europeia por um segundo mandato. A 2 de Outubro os eleitores irlandeses irão pela segunda vez dizer sim ou não ao Tratado de Lisboa. Na primeira, o ano passado, disseram não; se disserem sim agora (não se prevê ainda para que lado penderão) o presidente do Conselho da União e o ministro dos Negócios Estrangeiros, duas figuras institucionais novas a juntar ao presidente da Comissão na partilha de poder do projecto europeu, serão escolhidos. Não haverá o número de telefone que Kissinger queria mas com sorte será melhor do que a cacofonia actual.
Quer os irlandeses digam sim quer não, o resto do mundo não fica à espera do que a Europa queira ou faça. E se caprichos míopes de alguns políticos a fizerem perder tempo na preparação do futuro (como aconteceu este Verão com o adiamento frívolo da eleição de Barroso) tal custará aos europeus mais trabalho para se afirmarem no mundo. É labor permanente, com marcos sucessivos, dois deles à vista. No fim deste mês, a cimeira do G-20 em Pittsburgh, EUA, que irá delinear o enquadramento da saída da crise financeira e económica e, em Dezembro, a conferência de Copenhaga sobre estratégias globais perante alterações climáticas serão decisivas para medir a força da Europa na defesa dos seus interesses contra concorrência desenfreada de América, China, Japão, Rússia, Índia, Brasil e mais que irão chegando.
O que está em jogo dispensaria complacência e curteza de vistas mas a União Europeia é um animal político sui generis. Defende muitos interesses materiais e morais de cada europeu melhor do que o respectivo país faria mas não acorda patriotismo nas entranhas - ninguém irá morrer ou matar por Bruxelas. De maneira que o interesse geral é muitas vezes sacrificado à tirania e à urgência de interesses nacionais. Durante a Guerra Fria não fazia muita diferença: a ordem do mundo era estável e, entre 1957 e 1991, os participantes no projecto europeu viveram aconchegados no casulo ocidental, sem concorrência exterior.
Mas na idade da globalização se os 27 países, sobretudo os grandes, capricharem de mais em agirem sozinhos, outros poderes no mundo ditarão as regras do jogo. Quando, pelo contrário, não por glória de mandar mas por instinto de sobrevivência, a União fala em nome de todos os Estados-membros a voz da Europa é determinante. A crise actual animou nalguns demagogia proteccionista que, posta em prática, poderia enfraquecê-los a todos; Barroso, porém, tem sido implacável na defesa do mercado interno, pedra angular da prosperidade e das liberdades dos europeus. O seu primeiro mandato, exercido em circunstâncias difíceis, foi bem cumprido. O segundo poderá ser ainda melhor porque o terá conquistado a pulso sem ficar a dever favores a ninguém.