Jornal i, 24|Junho|2009
Quando há dias o aiatola Khamenei escolheu um dos lados que divide a sociedade iraniana, estava implicitamente a sentenciar o início do fim daquela teocracia tal como a conhecemos. O seu “poder divino”, ao declarar o vencedor, exasperou não só aqueles que há onze dias se manifestam nas ruas pelo reconhecimento do seu voto e da sua importância no destino do Irão, como afectou as diversas sensibilidades que compõe os complexos órgãos do regime (Khatami, Montazeri, Larijani, Rafsanjani). Por outras palavras, foi posta em causa a legitimidade hierárquica da teocracia: os mais novos, sobretudo as mulheres, querem política terrena, não divina; querem respeito e relevância, não desprezo nem o controlo do seu telemóvel; preferem a imagem externa do “seu Irão” ao populismo trauliteiro de Ahmadinejad.
Mas não é só por dentro que o regime pode ter encontrado o seu beco. No plano externo, as principais potências optaram por uma conduta perfeitamente realista e contida. Confesso que aplaudo a iniciativa e espero que Obama, Brown ou Merkel não entrem numa espiral lacrimejante de recados para Teerão. Soa a cinismo realista? Ainda bem. Se permitir prolongar no tempo uma mudança do regime vinda do seu interior, melhor: a impulsividade nunca foi boa conselheira. Mais: aqueles que agora querem patrocinar uma mudança de regime são os mesmos que criticaram Bush pelas suas aventuras idealistas. Convinha, hoje, manter alguma coerência e deixar que Obama continue a mostrar que não é mais do que um realista clássico. Bem-vindo ao clube.