O sopro da liberdade
20 | Junho | 2009
José Cutileiro
 

Expresso, 20|Junho|2009

Ou o povo é quem mais ordena. Acontece em dias tumultuosos como os desta semana em Teerão, com milhares de homens e mulheres na rua convencidos de poderem agarrar as rédeas do destino. Não se sabe, quando escrevo, como tudo irá acabar mas uma coisa se pode já dizer: o regime teocrático estabelecido no Irão depois da revolução de 1979 que mandou o Xá para o exílio nunca mais será o mesmo. A República Islâmica continuará a sustentar-se de petróleo e gás, a centrifugar urânio até ser capaz de fabricar bombas atómicas e a incluir muitos clérigos na governação do país, mas a autoridade do chefe supremo foi abalada para sempre. Antes de acabado o prazo de contagem de votos, o Guia Supremo ayatollah Ali Khamenei apressara-se a felicitar o Presidente Mahmud Ahmadinejad pela sua "vitória sagrada" mas depois, perante centenas de milhares de pessoas a manifestarem contra a maior 'chapelada' nas urnas da história do país, autorizou investigação dos resultados (mas não, como pedira outro candidato, Mir Hossein Mousavi, anulação e repetição das eleições). A investigação será concluída num prazo de dez dias pelo Conselho dos Guardiães, órgão político-religioso cujos membros foram em parte nomeados por ele e lhe deverão ser leais. Mas a versão iraniana da infalibilidade papal, por assim dizer, foi apanhada escandalosamente em falso. A pedra de fecho da abóbada rachou e começou a contagem decrescente até ao desmoronar final do regime. Talvez leve algum tempo mas é inexorável.

Não é certo que o que venha a seguir nos convenha. A oposição iraniana no exílio acusa Ahmadinejad e Mousavi de serem o polícia bom e o polícia mau de uma esquadra de malfeitores disfarçados de agentes da ordem e, mesmo dando desconto à tentação paranóide de cabeças exiladas, constata-se que ambos vêm da elite revolucionária, piedosa e radical, ambos são contra um estado laico no Irão, ambos foram carrascos convictos de compatriotas e infiéis. E o Guia Supremo traduziu para persa um comentário ao Corão do egípcio Sayyid Qutb, inspirador de Al-Qaeda. Mas o bom polícia praticaria melhor a arte de salvar a face do que o mau e precisa-se urgentemente desse talento para evitar futuro sangrento na região.

Ahmadinejad partiu de observador para uma reunião dos BRIC na Rússia onde à chegada tornou a anunciar o fim do capitalismo. É um populista antiamericano como são Kim Jong Ill e Hugo Chávez, que agora o felicitaram, mas o Irão não é um deserto estéril incapaz de alimentar corpo e espírito, como a Coreia do Norte, nem um poço de petróleo em Feira Popular subtropical dedicada a concursos de misses, como a Venezuela. É civilização antiga, foi sede de Império, tem arte e filosofia, inventou o xadrez. Vinte milhões de internautas, um enxame de blogues e twitters, animaram as eleições.

O sobressalto passará, deixando, com sorte, lugar menos intolerante. Entretanto, gente que dela só ouvira falar sentiu o sopro da liberdade com mais esperança do que susto.