Linha de rumo
28 | Março | 2009
José Cutileiro
 

Expresso, 28|Março|2009

A natureza humana não dá tréguas.

Assim que a crise se propagou dos Estados Unidos ao mundo todo foram feitas, desde a Casa Branca em Washington até ao Berlaymont em Bruxelas, advertências solenes contra medidas proteccionistas que nestas alturas tentam os governos, mas dão sempre mau resultado (nos anos 30 do século passado, como se sabe, abriram caminho à Segunda Guerra Mundial).

Toda a gente que hoje manda se declarou contra elas: as principais economias do mundo, reunidas no chamado grupo do G-20 em Washington, em Novembro (prepara-se reunião no mesmo formato em Londres em Abril), condenaram-nas - mas, disse um poeta, entre pensamento e acção cai a sombra.

Em relatório dado à estampa na semana passada, o Banco Mundial enumerou 47 medidas restritivas do comércio externo tomadas por 17 países-membros do G-20.

Casos destes enchem a gente de fé.

Em Washington, honra lhe seja feita, Obama parece às vezes ter esquecido posições hostis ao comércio livre, do agrado do Partido Democrático, que adoptara na campanha eleitoral e usou o seu (ainda imenso) prestígio para enfraquecer a cláusula Buy American que o Congresso introduzira na lei do estímulo económico. Os europeus continuam desconfiados, mas na União Europeia as coisas são ainda mais complicadas porque em vez de um governo há 27, cada um tentado a levar a brasa à sua sardinha mesmo que isso deixasse por assar sardinhas de outros. Por vocação política, determinação estatutária e experiência cabe à Comissão Europeia contrariar tais impulsos nacionalistas das capitais - ruinosos economicamente a médio prazo e envenenadores das relações entre as nações a curto prazo. É a Comissão quem mais tem mantido linha de rumo que permita aos 500 milhões de habitantes da União chegarem ao fim da crise sem fome, sem violência e sem perderem o seu lugar de primeira classe do comboio da humanidade.

Felizmente os pais fundadores da União eram homens práticos (Jean Monnet foi negociante de conhaque). Para fomentarem riqueza, criaram uma união aduaneira e sobre essa base prosaica veio a assentar o poder que a Europa hoje tem. O comércio externo, a concorrência e tudo o mais que foi sendo posto em comum são geridos pela Comissão (salvo o euro que cabe ao Banco Central) e fazem da Europa um gigante. Defesa e negócios estrangeiros, atributos nobres do Estado, continuam a ser geridos por capitais nacionais e fazem da Europa um anão. Mas os entusiastas comunitários que não se iludam: na Europa só se morre ou se mata por nações - e sem nações não haveria Europa. Quem não perceber isto não percebe nada.

A arte da governação europeia está em convencer patriotas nacionais de que serão mais bem servidos por soluções comuns a todos do que por soluções separadas de cada um. Proteccionismo e xenofobia virariam pátrias umas contra as outras - como Jean Monnet percebera durante as guerras de 1914-18 e 1939-45 e a Comissão Europeia tem agora de explicar a gente que já não sabe o que são guerras.