Males e remédios
21 | Março | 2009
José Cutileiro
 

Expressso, 21|Março|2009

Não há agora na Europa chefes políticos à altura dos monstros sagrados da primeira metade do século XX: os Churchills, os De Gaulles (ou, em memórias de vencidos, os Hitlers, os Estalines). Gente dessa envergadura medra melhor em tempo de guerra, porque é para grandes males que são precisos grandes remédios. Para as maleitas que foram afligindo os europeus entre 1945 e 2008 bastava o trivial variado.

No Verão passado, o grande susto da crise financeira, acompanhado por um cheirinho de guerra à antiga entre a Rússia e a Geórgia, acordou Bonaparte no peito de Sarkozy e a populaça gostou - em França e no resto da Europa. De repente era quase como nos livros de História. Mas não há invasões da Geórgia todos os dias, a presidência da União Europeia muda de seis em seis meses e, com a crise a morder a 'economia real', mandando milhares para o desemprego, heroicidades à antiga deram lugar a regateios entre patrões e sindicatos, governos e bancos, países uns com os outros.

Por fim, como não há uma política fiscal comum europeia mas sim políticas nacionais, como existe uma cultura de limitação dos défices e como o "modelo social europeu" vai protegendo os desempregados do pior, a quantidade de dinheiro que a União disponibilizou para estímulo da economia ficou aquém da americana, da japonesa ou da chinesa. E a ênfase em regulação é muito maior do que do outro lado do Atlântico.

Nos Estados Unidos, onde o estrago financeiro foi muito mais grave e não há socorro público ao desemprego, a sabedoria colectiva levara à Casa Branca um chefe que parece capaz de grandes remédios e que era, por assim dizer, o candidato do resto do mundo. (Mas essa popularidade universal começa a gerar anticorpos - há quem lhe chame a quarta pessoa da Santíssima Trindade). Entretanto, a eficácia do plano de estímulo de Obama tem deixado a desejar; medidas proteccionistas impostas no Senado pelo Partido Democrático já provocaram represálias mexicanas; se outras, ao mesmo gosto, viessem de aplicação leviana do plano de estímulo, levariam a guerra comercial com a União Europeia.

Embora os Governos se declarem contra o proteccionismo haverá ainda sobressaltos mas o chefe do Banco Federal prevê o fim da recessão antes do fim do ano. Talvez. Não se pode subestimar a energia frenética dos americanos que trabalham mais horas, mudam mais de emprego, ganham mais e consomem mais do que qualquer outro povo do mundo.

A saída da crise dependerá da liderança dos Estados Unidos mas eles, sozinhos ou só com os europeus, não trariam remédio que chegasse para estes males do mundo. O caminho para a cura passa por entendimento com as economias emergentes que por iniciativa europeia se tem vindo a esboçar desde o Outono. Em Abril, o encontro do G-20 em Londres deveria levar a um melhor tratamento das questões, pousando caboucos de governação económico-financeira no mundo globalizado. De preferência sem se revelarem grandes chefes, sinal de tempo de paz.