Obama e a Europa
24 | Janeiro | 2009
José Cutileiro
 

Expresso, 24|Janeiro|2009

A posse de Obama foi festa para milhões de pessoas, dentro e fora dos Estados Unidos, e quando, a seguir às tropas, desfilaram diante da tribuna os equivalentes americanos dos nossos ranchos populares, o ar de feira de província soprado sobre a solenidade oficial lembrou-me a minha primeira ida ao Congresso em Washington, numa manhã de Junho. Havia férias escolares, o palácio neoclássico onde eu ia ver vários senadores estava cheio de famílias dos quatro cantos do país, crianças gordas de shorts e Coca-Cola na mão, e pais no mesmo atavio que, em algaraviada constante, lhes mostravam e explicavam o governo da nação. No meio da balbúrdia, acotovelando caminho, lá fui vendo quem me esperava e, quando saí do Senado, senti-me como se tivesse saído da Feira Popular.

Amigo sábio que me acompanhava deu uma ordem ao motorista e ele levou-nos a Arlington, o grande cemitério militar de Washington, simples e sereno, mancha ondulada de relva e pedras brancas onde se entra por alameda de singeleza monumental. Deambulei uma hora no silêncio das suas áleas arborizadas, entre sepulturas de gente nova que tinha morrido pela pátria nas sete partidas do mundo, ou já velha em casa, depois de a ter servido, a que se tinham juntado os dois irmãos Kennedy assassinados e outros heróis nacionais. Ali jaziam, debaixo das árvores e da relva, no coração da pátria.

Entre as Coca-Colas e as gargalhadas da miudagem provinciana no Senado e o silêncio das sepulturas de Arlington, percebi nesse dia uma coisa. A América era sem dúvida uma grande Feira Popular, optimista, pachola, inestética, sem peneiras, de trato simples, sempre pronta a dar uma mão a quem precisasse de ajuda. Mas essa boa disposição não queria dizer indiferença moral ou tolerância para tudo; quem não se sente não é filho de boa gente e ai de quem se metesse com ela, ou com os amigos dela.

No seu discurso de posse, Barack Obama lembrou essa disposição para que os inimigos dos Estados Unidos percebessem bem que aí não haveria mudança. Os inimigos e os amigos. Porque, embora as relações dos europeus com ele tivessem melhorado nos últimos anos, George W. Bush continuou a ser óptimo pretexto para justificar inacção europeia em áreas de interesse comum. Com Obama a impor desde o primeiro dia respeito pela constituição americana (isto é, pelos direitos do homem) e a anunciar o fecho de Guantánamo, a desculpa ética deixa de poder servir de disfarce à inércia e à descoordenação dos europeus que vão agora ser postos à prova. Graças a excelente iniciativa portuguesa, Guantánamo - receber presos de lá - corre melhor do que se esperaria mas há quem arraste os pés. Afeganistão - mandar mais tropas para lá - será teste difícil e crucial.

Os governos deveriam ouvir mais os povos. Nesta quarta-feira, os residentes de um lar de terceira idade em França - campeã do antiamericanismo europeu - decidiram festejar a eleição americana com um 'almoço Obama'. Enquanto há vida há esperança.