Sara, o velho e outras confusões
15 | Setembro | 2008
José Cutileiro
 

Expresso, 15|Setembro|2008

Com bom tempo a vida do cronista de política internacional é parecida com a vida do dono de um restaurante de peixe que se levante de manhã com a ideia de pôr salmonete na ementa mas que, se o que houver na praça for robalo, é robalo que terá de lá pôr. Com mau tempo é diferente. Se o mar estiver tão bravo que não se possa pescar o restaurante terá de se governar com o que tiver sobrado da véspera. Mas se for o mundo a estar bravo, chegarão cascatas de notícias a telefonias, televisões, jornais, portais de Internet e o cronista ficará sem saber para onde se virar. Em Agosto, na tradição europeia de ir para a guerra no Verão - a invasão da Geórgia pela Rússia pôs a cereja no bolo.

E a mesa já estava cheia de outros petiscos - Angola, agora em jeito de paz; Israel, Gaza e a Margem Ocidental do Jordão; Afeganistão cada vez mais nhurro; Paquistão numa encruzilhada; Irão, onde vai ser promulgada legislação sobre o casamento inspirada por ideias do ayatollah Khomeini, para quem os três grandes inimigos da fé eram os Estados Unidos, os judeus e as mulheres; Iraque que começa a recompor-se; eleições nos Estados Unidos em que os europeus, seduzidos por Obama, descobrem, horrorizados, que a América afinal é capaz de preferir "Sara Palin e o velho", como respondeu um eleitor do Missouri à pergunta sobre as suas intenções de voto.

Com o mundo neste estado e - fruta da nossa época - a sabermos dele em tempo real, só há um preceito a seguir por quem se veja metido ao barulho: tratar do que for importante antes de tratar do que for urgente. Por isso a Rússia ocupa as linhas seguintes.

Jacques Chirac quando estava no Eliseu e quase toda a esquerda europeia queriam um mundo multipolar porque o poder desproporcionado de Washington os incomodava. Está a chegar aí mas não vai ser como eles pensavam. Os novos pólos serão concorrentes comerciais e geoestratégicos impiedosos; e nem sequer é certo que nos queiram tomar por modelo moral e cívico. O mais parecido connosco - e mais próximo - é a Rússia, que está outra vez poderosa. O povo é cristão, as elites conheciam os clássicos gregos e latinos. Depois de mais de dez anos de queda desamparada veio a riqueza em petróleo e gás mas não foi acompanhada de amenidades sociais. A vida é bruta, ruim e curta. Não há tradição democrática. Vender energia para mercados tanto quanto possível cativos (por excelência, os europeus) traz muito dinheiro mas há pouco valor acrescentado em todas as exportações da Rússia. Vizinho fanfarrão que quer mudar as extremas a seu favor e só se dá ao respeito por ter um arsenal nuclear.

Europeus e americanos querem transformá-la em parceiro civilizado. Até agora podia ter corrido pior. Cheney na Geórgia irrita o Kremlin mas lembra-lhe que a vida pode deixar de ser um mar de rosas. Sarkozy e Barroso mostram-lhe que tem mais a perder do que a ganhar com agressões a interesses e valores europeus. Doseados com jeito, "hard power" e "soft power" levarão o urso ao sítio.