Europa, EUA e Rússia
12 | Abril | 2008
José Cutileiro
 

Expresso, 12|Abril|2008

Nicolas Sarkozy e Angela Merkel estão a tirar as relações da Europa com os Estados Unidos do atoleiro onde a invasão do Iraque, Jacques Chirac e Gerard Schroeder as tinham metido. Apesar de os socialistas da sua coligação não deixarem a senhora fazer tanto quanto ela gostaria para endireitar a Alemanha e de Sarkozy ter dificuldade em domar a 'excepção francesa' (na V República sempre que presidente, parlamento e governo, de direita ou de esquerda, decidiram reformas de fundo, a rua protestou, presidente, parlamento e governo meteram a viola no saco e as reformas não se fizeram), têm-se dado passos enormes. Com uma diferença importante: Merkel está a levar a República Federal de volta às relações amigáveis mantidas com os Estados Unidos desde a derrota na Segunda Guerra Mundial até ao aproveitamento oportunista da invasão do Iraque por Schroeder; Sarkozy está a fazer o que nenhum presidente fez desde a chegada de De Gaulle em 1958. Em França, da extrema esquerda, associada aos socialistas em coligações autárquicas, à extrema direita, a quem Sarkozy tirou poder e influência, passando pelo grosso dos militantes dos partidos moderados que alternam no governo do país, era de bom tom desprezar os Estados Unidos e fazer tagatés à Rússia (dantes União Soviética, mas De Gaulle, que dessas coisas sabia, chamava-lhe sempre Rússia). Ao contrário, Sarkozy diz alto e bom som que é pró-americano e que só uma forte relação transatlântica poderá defender o Ocidente e garantir a sobrevivência universal dos seus valores.

Infelizmente, em 2008 a Washington de George W. Bush não é a Washington de Kennedy em 1962, ao lado da qual De Gaulle alinhou logo quando começou a crise dos mísseis cubanos, nem a de Reagan em 1983, quando Mitterrand foi ajudar Kohl no Bundestag a favor da colocação de mísseis nucleares intermédios norte-americanos na Alemanha Federal. Das duas vezes a Rússia ameaçara, perdera e amochara. E em 2004, quando se opusera ao alargamento da OTAN que daria entrada aos três Estados bálticos, ex-membros da URSS, ameaçara de novo e tivera outra vez de amochar. Mas George W. Bush desgastou o património de meio século de respeito e confiança, os europeus precisam de gás russo e Sarkozy e Merkel, embora pró-americanos, recusaram o estatuto de candidato à OTAN da Ucrânia e da Geórgia, que Washington queria e a que Moscovo se opunha.

Se é certo que desde o fim da Guerra Fria interesses de segurança europeus e americanos nem sempre coincidem, poder-se-ia ter admitido essa diferença quanto ao Kosovo, deixando os Estados Unidos reconhecê-lo sem os europeus, em vez de se optar por fachada de unidade seguida de uma procissão de sarilhos. Mas não quanto ao alargamento da OTAN, onde o "nyet" franco-alemão curto de vistas (relento gaullista e genscheriano) enfraqueceu o flanco leste da Europa e reforçou a convicção russa, inchada por petróleo a $100 o barril, de que se Moscovo bater o pé com força quem amocha são os europeus.