Nuno Severiano Teixeira

O retrato estragado do Tio Sam
Diário de Notícias, 24|Junho|2006

Tio Sam foi ao fotógrafo e ficou mal no retrato. Um estudo de opinião realizado junto de 17 mil pessoas em 15 países diferentes revela que a imagem dos EUA no mundo está cada vez pior. O estudo, da responsabilidade de um instituto norte-americano, prestigiado e independente, o Pew Research Institute, mostra que pelo quarto ano consecutivo, desde a guerra no Iraque, há uma degradação consistente e progressiva da imagem americana por todo o mundo. Incluindo os aliados mais fiéis. Na Europa, entre 2002 e 2006, a opinião favorável aos EUA caiu drasticamente: em França de 63 para 39%, na Alemanha, de 61 para 37%, em Espanha de 38 para 23% e até, na incondicional Inglaterra, de 83 para 56%. No mundo islâmico, com a excepção do Paquistão, o panorama é semelhante. Na Indonésia, baixou de 61 para 30% e na própria Turquia, aliado tradicional e membro da NATO, a opinião favorável desceu de 30 para 12%. Na Rússia, de 61 para 43%. Mas nas potências emergentes, a Índia e a China, embora os dados sejam mais recentes, a tendência é positiva.

Mas, mais importante do que isso, é que a opinião pública internacional pensa que o mundo está mais perigoso por causa da guerra do Iraque. Com excepção dos EUA e da Índia, em todos os outros países esta tendência é clara. Mesmo em Inglaterra, cujas tropas combatem ao lado das tropas americanas no Iraque, 60% dos inquiridos acham que o mundo está mais perigoso por causa do combate que travam. Ficámos, ainda, a saber que na Europa e no Japão nove em cada dez pessoas ouviram falar de Guantánamo e de Abu Ghraib. Mais do que nos próprios EUA, onde apenas três quartos sabem o que é.

Depois de ver o retrato, a primeira pergunta é: porque é que a América ficou mal na fotografia? Por causa do Iraque, certamente. Primeiro, pela forma arrogante como conduziu a guerra. Segundo, mais do que isso, pela forma desastrosa como geriu a paz. E não só no plano da realidade, mas, sobretudo, no plano das representações. Guantánamo, Abu Ghraib, Haditha tornaram-se símbolos, que correram o mundo. A imagem do prisioneiro iraquiano nu puxado pela trela por uma militar americana tornou-se um ícone tão forte como o da menina vietnamita que foge nua pela estrada de um ataque de napalm.

Independentemente de o comportamento dos guardas americanos ser a excepção ou a regra, independentemente dos inquéritos e das punições, é o ícone que fica. É o símbolo que persiste no imaginário. E, certa ou errada, é a imagem que passa da América de Bush. E é essa imagem que faz a opinião pública internacional.

A segunda pergunta é: pode a América retocar a fotografia? Pode mudar a sua imagem? Ou, como diz Joseph Nye, reganhar o seu soft power, o seu poder de sedução? Não era a primeira vez. O antiamericanismo não é coisa nova e os americanos têm essa experiência. Durante a Guerra do Vietname o antiamericanismo grassou. Mas uma década depois os EUA tinham recuperado a imagem. Como? Primeiro, mudando a política para o Vietname. Segundo, sem abdicar dos interesses, desenvolvendo uma política de valores. Foi o que fizeram Jimmy Carter na defesa dos direitos humanos e Ronald Reagan na defesa da liberdade e da democracia na Europa do Leste.

Em pouco tempo, com o fim da Guerra Fria, viram triunfar o modelo americano. E a sua hegemonia assentou então não só no poder das armas mas sobretudo na sedução dos valores: a economia de mercado, a liberdade e a democracia.

Hoje, se a América quiser mudar o retrato, terá de fazer a mesma coisa. Primeiro, mudar a sua política externa, moderar a arrogância internacional e inflectir o unilateralismo. É o caminho que a segunda Administração Bush e Condoleezza Rice têm percorrido. A abertura aos aliados, a détente transatlântica, os inquéritos sobre os abusos nas prisões iraquianas e agora o anúncio reiterado do fecho de Guantánamo são disso o exemplo mais acabado.

O problema está na política dos valores. É que enquanto a política das quatro liberdades de Roosevelt, nos anos 40, ou a dos direitos humanos de Carter e o apelo à liberdade para a Europa do Leste de Reagan, nos anos 80, eram ideias partilhadas e mobilizadoras na opinião pública internacional, depois do Iraque a retórica de Bush sobre a democracia no Médio Oriente soa menos a sedução do que a imposição unilateral.

Sim, a História diz que é possível retocar a fotografia. Mas o mais certo é termos que esperar pela próxima Administração.