João Marques de Almeida

1979: O ano em que “nasceu” a al-Qaeda

O ano de 1979 foi um daqueles anos que marcou para sempre o mundo muçulmano. No dia 1 de Fevereiro, deu-se a Revolução iraniana. Em Novembro, a Grande Mesquita em Meca foi assaltada por um grupo radical islâmico. Por fim, em Dezembro, o Exército Vermelho entrou no Afeganistão. As consequências do que aconteceu nesse ano ainda hoje se fazem sentir na política mundial.

“Viemos para salvar a revolução”

O ano começou com o fim do reinado do Xá Reza Pahlavi e com a conquista do poder no Irão pelo Ayatollah Khomeini. A criação da República Islâmica na antiga Pérsia teve um significado elevado para o Islão. Apesar da Revolução ter sido feita por um movimento Xiita, a maioria dos muçulmanos percebeu que o islamismo político tinha capacidade para chegar ao poder. Com o descrédito sofrido pelo nacionalismo árabe durante a década de 1970, as sociedades muçulmanas assistiram, gradualmente, à substituição do pan-arabismo pelo pan-islamismo como ideologia política de massas. Neste sentido, imediatamente após ter tomado o poder, Khomeini apelou à revolução islâmica. O novo Irão abria assim o caminho para a “Pax Islamica”. Simultaneamente, o confronto como “Grande Satã” norte-americano acentuava-se, como demonstraram o assalto à Embaixada dos Estados Unidos em Teerão, em Novembro de 1979, e a crise dos reféns que se seguiu. A Revolução iraniana confirmava dois dos pontos centrais dos fundadores do islamismo radical. O poder tinha de ser conquistado através da revolução e os Estado Unidos, na sua condição de líder do mundo ocidental, eram o inimigo principal do Islão.

A galvanização provocada pela revolução islâmica no Irão sentiu-se, ainda em 1979, na Arábia Saudita. No dia 20 de Novembro, cerca de duzentos militantes islâmicos armados ocuparam a Grande Mesquita de Meca como forma de protesto contra a corrupção interna e a política de alinhamento com os americanos. Apesar de ter enfrentado uma forte resistência, o exército do reino acabou por derrotar os assaltantes. Todavia, e com algum espanto, o mundo ficou a saber da existência de uma oposição islâmica na Arábia Saudita, como de resto se tem confirmado nos últimos tempos. No entanto, o acontecimento mais significativo para o futuro do islamismo radical não foi nem a revolução iraniana, nem a crise saudita. O momento crucial ocorreu no fim do ano no Afeganistão.

Aparentemente, quando ocuparam a Rádio Kabul na noite de 27 de Dezembro de 1979, os paraquedistas soviéticos afirmaram o seguinte: “viemos para salvar a revolução”. Em vez de salvarem a revolução socialista, plantaram as raízes para a emergência de uma revolução islâmica. À semelhança do que tinha acontecido na Hungria, em 1956, e na Checoslováquia, em 1968, a intervenção da União Soviética no Afeganistão visava consolidar as conquistas da revolução socialista de Abril de 1978. Desde o Verão desse ano, a oposição ao regime socialista recorria à violência para combater o governo afegão. A resistência fundava no Islão a sua legitimidade política e os actos de violência eram vistos como o início da “jihad” contra um governo apoiado por uma potência vizinha “infiel” que, além do mais, tinha enviado as suas tropas para o Afeganistão. Historicamente, a religião sempre teve uma importância central na sociedade afegã. Num país com várias identidades étnicas e culturais, e onde o Estado é uma realidade distante para a maioria da população, a religião muçulmana constitui o factor de união. Convém, no entanto, distinguir o conservadorismo religioso, com claros traços fundamentalistas, e próprio de uma sociedade bastante tradicional, do radicalismo islâmico.

No Afeganistão, o Islão este sempre associado a uma organização tribal da sociedade e serviu como factor de unidade nacional e de resistência à expansão dos impérios vizinhos, principalmente o russo e o britânico. Faltava-lhe, contudo, os traços modernos que definem o islamismo radical: um projecto revolucionário, uma concepção totalitária do Estado e uma visão de unidade islâmica transnacional. Até aos anos 70, a sociedade afegã não era suficientemente moderna para poder gerar um movimento político islâmico. A modernização dos anos 70 e 80, juntamente com a radicalização provocada pela invasão soviética, contribuíram de um modo decisivo para a emergência do radicalismo islâmico no país. Embora necessários, estes processos foram insuficientes. Precisaram de ajudas externas.

Bin Laden chega ao Afeganistão e os soviéticos saem

Em larga medida, o radicalismo religioso chegou ao Afeganistão com a vinda dos combatentes islâmicos de todo o mundo muçulmano, especialmente dos países árabes. Até meados dos anos 1980, a ajuda externa era quase exclusivamente financeira. A partir de 1984, começaram a chegar voluntários de todo o mundo muçulmano para ajudarem a causa afegã. Foi assim que a “jihad” contra o invasor soviético se transformou na grande causa do movimento radical islâmico, contribuindo para a sua mobilização política. Aliás, deve notar-se que o apelo à “jihad”, fora do Afeganistão, foi feito por grupos radicais islâmicos e não por Estados muçulmanos. Na segunda metade da década de 1980, a causa afegã suplantou mesmo a causa palestina. Calcula-se que entre 1982 e 1992, cerca de 35 mil combatentes islâmicos de todo o mundo estiveram na guerra do Afeganistão. Estas brigadas islâmicas internacionais, ou “jihadistas”, receberam a ajuda dos serviços de informação do Paquistão e das organizações islâmicas paquistanesas, nomeadamente o Jamaat-e-Islami de Mawdudi e as Madrassas.

É igualmente verdade, como tem sido notado nos últimos tempos, que os Estados Unidos deram apoios económicos e militares aos “mujahideen” afegãos. Apesar da ajuda se ter iniciado com Jimmy Carter, após o início da primeira Presidência de Ronald Reagan, em 1981, o apoio norte americano aumentou consideravelmente. Não é porém correcto condenar os Estados Unidos por esse apoio, e muito menos é afirmar que foi a “CIA que criou a al-Qaeda”. Antes de mais, Washington não estava a apoiar um grupo islâmico em particular, nem sequer tinha relações privilegiadas com bin Laden e os seus aliados. Os Estados Unidos apoiaram todas as forças que combatiam os soviéticos, incluindo as que mais tarde deram origem à Aliança do Norte, adversário dos “Taliban” e da al Qaeda na guerra civil afegã dos anos 90. Além do mais, no contexto da Guerra Fria e da estratégia de contenção à expansão soviética, fazia todo o sentido apoiar os grupos que combatiam o Exército Vermelho no Afeganistão. Pode dizer-se que os norte americanos não anteciparam a natureza da ameaça da al Qaeda e do radicalismo islâmico sunita. Mas isto é consideravelmente diferente de lhes atribuir a paternidade do movimento de bin Laden.

O milionário saudita foi um dos que chegou ao Afeganistão para combater os soviéticos. A sua visão do mundo tinha sido profundamente influenciada pelo radicalismo islâmico dos membros da Irmandade Muçulmana egípcia, influenciados pelo pensamento de Sayyid Qutb, que se refugiaram no reino saudita após terem sido expulsos do Egipto nos anos 60. Alguns deles, incluindo um irmão de Qutb, foram mesmo professores de bin Laden na Universidade. Sob uma aparente estabilidade, vivia-se uma atmosfera de radicalismo político e religiosos na Arábia Saudita, que culminou no assalto à Grande Mesquita de Meca. Estes meios radicais eram compostos por jovens universitários e com uma posição social privilegiada, à semelhança do que se passava com bin Laden. A invasão do Afeganistão levou a que muitos destes jovens sauditas, juntamente como os seus professores universitários, sentissem o apelo da “jihad” contra o infiel soviético.

Em 1979, bin Laden deslocou-se aos campos de refugiados no Paquistão, iniciando a ajuda financeira à resistência afegã. Em 1982, entrou finalmente no Afeganistão, juntando-se aos “mujahidin”. Quando, em 1984, regressou ao seu país, afirmou que tinha “vivido mais em dois anos no Afeganistão do que poderia viver em cem anos noutro sítio qualquer”. Com o aumento da chegada dos combatentes muçulmanos dos países árabes, a partir de 1984, bin Laden montou campos de treino militar na fronteira do Paquistão com o Afeganistão, por onde passavam aqueles que ficaram conhecidos como os “afegãos árabes”. Foi a partir deste momento que bin Laden plantou as raízes para o que viria a ser a al Qaeda. No mesmo ano, bin Laden conheceu o médico egípcio, Ayman al-Zawahiri, membro da Irmandade Muçulmana, o qual tinha fugido da prisão no Egipto, e é hoje um dos principais dirigentes da al Qaeda, sendo mesmo considerado o principal cérebro dos ataques do 11 de Setembro.

Bin Laden e al-Zawahiri representam os dois padrões de árabes que se transformaram, durante a década de 80, nos “soldados do Islão”. Por um lado, o filho de uma família milionária da Arábia Saudita, desiludido com o seu país e à procura de um rumo que acabasse com o vazio de uma vida abastada e fácil. Milhares de jovens sauditas e de outras monarquias do Golfo seguiram os passos de bin Laden. Aliás, as idas para a “guerra santa” no Afeganistão tornaram-se tão comuns que passaram a ser conhecidas como “jihad tours”. Estas estadias contribuíam para a radicalização dos jovens sauditas, integrando-os no movimento radical islâmico. O outro tipo de “jihadistas” era constituído por intelectuais e membros das profissões liberais dos países do Médio Oriente e do Magrebe, muitos deles com passado político, normalmente associado à Irmandade Muçulmana. Quando os soviéticos se retiraram do Afeganistão, os membros das brigadas islâmicas internacionais tinham duas soluções. Regressavam para os seus países, onde iriam tentar fazer revoluções, como aconteceu na Argélia, no Egipto e na Arábia Saudita, ou então iam combater outras guerras de libertação em nome do Islão, como no Caxemira, na Tchétchénia ou na Bósnia. Quanto ao Afeganistão, um pouco mais moderno e muito mais radicalizado, após o fracasso da revolução socialista, estava em condições de receber a revolução islâmica. A geração da ocupação soviética, educada nas Madrassas do Paquistão, onde aprendeu as lições do islamismo radical, iria finalmente criar uma República Islâmica em meados dos anos 90. Entretanto, o percurso do islamismo radical foi para outras terras.

Os infiéis na terra do Islão

Empolgado com a abertura soviética, com a queda do Muro de Berlim e com as revoluções democráticas da Europa de leste, o mundo ocidental ignorou a importância de uma segunda data crucial para o islamismo radical, 1989. Há uma outra maneira de contar o que aconteceu na política mundial naquele ano. Em vez de nos concentrarmos nas mudanças políticas que ocorreram em Moscovo, Berlim e Praga, podemos olhar mais para oriente e para sul. No Afeganistão, as tropas soviéticas retiravam-se esgotadas e humilhadas, e os combatentes islâmicos proclamavam vitória. Simultaneamente, o enfraquecimento da União Soviética abria caminho para o aumento do islamismo na Ásia Central. Na Palestina, o Movimento da Resistência Islâmica (Hamas) passava a liderar a Intifada. No Sudão, a Frente Islâmica Nacional, liderada por Hassan al-Turabi, conquistava o poder através de um golpe de estado. Na Argélia, a Frente de Saudação Islâmica ganhava as eleições regionais, as primeiras eleições livres desde a independência do país. Do Irão, Khomeini, proclamava a “fatwa”, a declaração de morte, contra o britânico Salman Rushdie, o autor dos “Versos Satânicos”. Dito de outro modo, em 1989, o “jihad” afegã derrotou uma das duas superpotências, um dos principais ideólogos do movimento islâmico internacional, Turabi, chegou ao poder através da revolução e o líder da Revolução iraniana expandiu as leis do Islão para a Europa ocidental. Em suma, um ano de vitórias e de expansão para o islamismo radical. Ou seja, não foi só o Ocidente que celebrou vitórias políticas em 1989.

Em Agosto de 1990, o Iraque de Saddam Hussein invadiu o Kuwait. Receando uma possível agressão iraquiana, o reino saudita pediu protecção militar aos Estados Unidos, cuja administração rapidamente deslocou tropas para o país. O movimento radical islâmico saudita assistiu assim à chegada de soldados infieis à terra sagrada do Islão. Para evitar a presença militar norte americana, bin Laden ainda ofereceu os serviços da al-Qaeda para combater as tropas iraquianas. O governo saudita recusou a oferta. Como resposta, os radicais islâmicos declararam inválida a custódia da monarquia saudita dos lugares sagrados do Islão, Meca e Medina. Bin Laden comparou o estabelecimento de bases militares americanas na Arábia Saudita com a invasão soviética do Afeganistão. Convencidos de que tinham desempenhado um papel central na derrota do império soviético, bin Laden e os seus companheiros convenceram-se que também seriam capazes de vencer o império americano. A declaração de guerra aos Estados Unidos teve o seguinte título: “declaração da “jihad” contra a ocupação americana dos lugares sagrados”. Simultaneamente, bin Laden apelava à revolução contra a monarquia saudita. Desde a chegada das tropas soviéticas e de bin Laden ao Afeganistão, em 1979, o caminho tinha sido longo. Para defender o uso do território do Afeganistão com o objectivo de destabilizar as colónias britânicas na Índia, Trotsky afirmou um dia que “a estrada da revolução para Paris e Londres passa pelas cidades do Afeganistão”. Oitenta anos mais tarde, ‘a estrada para Nova Iorque e Washington voltou a passar pelo Afeganistão’. Desta vez, com mais sucesso.