João Marques de Almeida

Ásia ou Atlântico?
Diário Económico, 23|Maio|2011

Existe a convicção, um pouco por todo o lado, que o século XXI será da Ásia e não do Atlântico. O crescimento económico e o dinamismo social viajaram para o Oriente e, no Ocidente, ficaram o declínio e as dívidas, sobretudo no Norte, nos Estados Unidos e na Europa.

O influente analista norte-americano, Fareed Zakaria, fala do "mundo pós-americano", um dos mais conhecidos académicos asiáticos (Professor em Singapura), Kishore Mahbubani, afirma que o "poder global" se transferiu para o "novo hemisfério asiático", e até a estrela mediática dos historiadores do mundo anglo-americano, Niall Ferguson, se juntou ao coro, observando que a "era do predomínio ocidental chegou ao fim", e "começou a idade do poder asiático".

Não há dúvida alguma que o mundo se transformou profundamente durante a última década. Não foi apenas a emergência de um sistema global mais multipolar e menos unipolar, ocorreu igualmente uma transferência de poder do norte Atlântico para o oriente e para o sul. É uma evidência que não pode ser rejeitada. No entanto, isso não significa que a Ásia caminhe inevitavelmente na direcção da grandeza e do sucesso e que o "velho" Atlântico esteja condenado ao declínio.

Em grande medida, as teses citadas em cima cometem o erro de colocar o crescimento económico no centro das suas análises. É importante, mas não é tudo. Mais do que isso, o crescimento económico, sozinho, não é capaz de evitar conflitos e rivalidades. Basta verificar como a Europa cresceu economicamente na primeira década do século XX. Quatro anos depois, muitos dos que tinham beneficiado do dinamismo europeu matavam-se nos campos de batalha europeus.

Não estou a prever uma guerra asiática. Mas olho para a Ásia e vejo muito mais do que crescimento económico. Noto uma crescente rivalidade geopolítica entre as potências regionais, a qual resulta na intensificação da corrida aos armamentos. Verifico uma extensa lista de conflitos territoriais por resolver; entre a China e a Rússia, entre a China e a Índia, entre a China e o Japão, entre a Índia e o Paquistão, entre a Rússia e o Japão. Posso acrescentar ainda a divisão das Coreias e das Chinas. A Ásia é ainda não só a região do mundo com mais potências nucleares (China, Índia, Paquistão, Rússia), como aquela onde se encontram os dois países que procuram alcançar esse estatuto (Coreia do Norte e Irão). Talvez seja prematuro celebrar o novo hemisfério asiático.

Se regressarmos ao Atlântico, também encontramos problemas. No norte, existe uma grande dificuldade em reformar a organização económica e social das sociedades europeias e norte-americanas. O sul, especialmente África, continua a ser marcado pela pobreza e por uma forte instabilidade política. Mas há, simultaneamente, enormes vantagens. As grandes potências da região têm relações pacíficas e não competem militarmente. A região do Atlântico continua a dominar a economia mundial, com 2/3 do PIB global. O Atlântico sul cresce e continuará a crescer economicamente durante as próximas décadas. E o norte continua a dominar na área da inovação científica e tecnológica. Há ainda uma proximidade cultural sem par no resto do mundo. A grande maioria dos cidadãos do Atlântico comunica em apenas quatro línguas: português, espanhol, inglês e francês.

Não ficaria nada surpreendido se o século XXI testemunhar a ocorrência de grandes conflitos na Ásia, e assistir à integração económica e à cooperação política no espaço Atlântico. Os séculos raramente confirmam as previsões iniciais, como muito bem sabem os europeus.