João Marques de Almeida

Os limites dos BRICS
Diário Económico, 18|Abril|2011

Os BRICS realizaram a sua terceira Cimeira na passada quinta-feira, na China. O grupo de potências emergentes, o Brasil, a Rússia, a Índia, a China e, a partir da semana passada, a África do Sul (o S refere-se a South Africa) tornou-se um factor importante da política mundial.

Começou por ser uma categoria económica, criada em 2001 por um analista do banco Goldman Sacks, que se referia às maiores economias emergentes.

Gradualmente, foi-se transformando num grupo geopolítico, começando a realizar Cimeiras anuais, a partir de 2009. Este ano alargou-se à maior potência africana.

Os seus membros estão unidos pela defesa das virtudes da distribuição multipolar do poder global e pelo revisionismo contra a "ordem ocidental". São as principais potências da ordem "pós-Ocidental". Há uma certa lógica a circular na sua natureza. Juntam-se porque são as novas grandes potências; e cada uma delas considera-se uma potência global porque se reúne com as outras. Ou seja, tornar-se um "BRIC" passou a ser também uma questão de estatuto político. Por exemplo ao aderir ao grupo, a África do Sul foi reconhecida pelos outros como a principal potência africana. De acordo com esta lógica, países como a Turquia, a Indonésia e o México estão a fazer esforços diplomáticos para serem convidados para futuras reuniões (não ficaria surpreendido que a Turquia ou a Indonésia fossem convidadas para a Cimeira do próximo ano, como uma forma de representação do "mundo muçulmano").

A importância dos BRICS, para além de ser um símbolo de um mundo mais multipolar e menos ocidental, continua a ser muito mais económica do que política. Por um lado, a dimensão das relações económicas entre eles está a aumentar de um modo significativo. O peso dos respectivos mercados para as suas exportações e importações está mais próximo dos tradicionais mercados europeus e norte-americanos. Por outro lado, dado o seu crescimento económico, os BRICS pretendem reforçar a sua influência nas instituições que governam a economia global, como o G20, o FMI, o Banco Mundial e a OMC. A última Cimeira concluiu um "Plano de Acção", que se concentra sobretudo na economia, quer na coordenação das posições em relação às grandes questões económicas globais, como no reforço das relações comerciais entre eles.

Em termos políticos, a cooperação entre os BRICS, e a sua influência, enfrenta ainda obstáculos poderosos. Por um lado, a causa do seu sucesso constitui a razão dos seus limites. A ordem multipolar tende a agravar a competição estratégica entre eles, especialmente entre a China, a Índia e a Rússia (como se vê pelo reforço dos respectivos orçamentos de defesa). Além disso, a China trata a Índia, o Brasil, a África do Sul e, cada vez mais, a Rússia, como potências regionais. Pelo contrário, o Brasil, a Índia e a Rússia olham para o grupo "BRICS" como a promoção a potências globais. Por outro lado, a sua influência na segurança internacional ainda é limitada. Não só não possuem capacidade para projectar poder militar para longe das suas fronteiras, como não mostram vontade política de o fazer. Como mostra a crise do Médio Oriente e a votação no Conselho de Segurança, onde todos os BRICS (à excepção da África do Sul) "escolheram" a abstenção, na segurança internacional os BRICS ainda não são mais do que uma coligação de abstencionistas.