João Marques de Almeida

Patriotismo
Diário Económico, 11|Abril|2011

Entendam o que vão ler como um desabafo patriótico. Não é uma crítica a todos aqueles que têm apontado os males e os erros do nosso país.
Também partilho muita dessa desilusão e mesmo raiva. Mas Portugal terá que ser mais do que isso. E apesar de tudo, e por tudo o que se passa, este também é o momento para sermos patriotas.
Por razões profissionais, estive no Brasil na semana passada. Senti orgulho por ser português. Não ligo nada às famosas piadas sobre os portugueses (vejo nelas simplesmente uma manifestação do humor dos brasileiros sobre si próprios; e entendo-os perfeitamente). Percebi duas coisas no Brasil. À medida que a importância do país no mundo vai crescendo, também aumentará a consideração dos brasileiros pela herança portuguesa. Paralelamente, os portugueses deverão sentir-se mais orgulhosos do seu passado. Muitos países europeus tiveram colónias. Até hoje só um deles produziu uma grande potência mundial, o Reino Unido com os Estados Unidos. Portugal poderá ser o segundo (e certamente o último), se o Brasil finalmente cumprir o seu destino. Tal como um pai sente orgulho num filho com sucesso, uma velha nação europeia deverá sentir orgulho quando uma antiga colónia se transforma numa potência mundial de sucesso.
Mas vi e ouvi mais. Ouvi referências elogiosas à competência e à capacidade da nova geração de imigrantes portugueses no Brasil. Passaram dos donos das padarias (sem qualquer ofensa) a gestores, empresários, engenheiros e universitários de sucesso. Hoje, em Brasília, as embaixadas europeias mais activas e influentes são a alemã, a britânica, a francesa e a portuguesa. E até no futebol, os brasileiros sabem o que se passa em Portugal. Muitos felicitaram-me pelos resultados das equipas nacionais na Liga Europa.
Mas o patriotismo será fundamental na Europa. O apoio da União Europeia será muito importante para Portugal sair da situação económica em que se meteu. Não podemos ter dúvidas sobre o que é elementar. Mas não deveremos alimentar nem aceitar qualquer atitude de castigo ou humilhação. Cometemos muitos erros, mas não os cometemos sozinhos. Em 2008, falou-se muito da "irresponsabilidade dos bancos anglo-saxónicos". Os bancos alemães, alguns dos nossos maiores credores, não foram mais responsáveis. Além disso, os países da União não chegaram ao mercado único e ao Euro em igualdade, mas com condições de desenvolvimento económico muito diferentes. Ora, o contrato europeu foi claro: os mercados abrem-se em troca da solidariedade entre europeus.
E a política europeia não se esgota nas finanças públicas, nem na economia (por muito importantes que sejam). O nacionalismo egoísta e a intolerância contra os imigrantes aumentam de um modo preocupante. Há países com dívidas baixas e triplos AAA nas agências de notação, onde os partidos nacionalistas, xenófobos e anti-europeus têm cada vez mais votos (o que aconteceria se estivessem pobres e endividados?). Os portugueses têm dívidas e dificuldades económicas, mas não se viram contra os imigrantes, contra a Europa ou contra o mundo. Na abertura e na tolerância, alguns dos nossos parceiros europeus têm muito a aprender connosco.