João Marques de Almeida

Ousadia e prudência
Diário Económico, 14|Março|2011

A Europa hesita entre a ousadia e a prudência em relação à guerra civil na Líbia. E faço uma clarificação desde já: a hesitação não tem nada a ver com a natureza da União Europeia ou da sua política externa.

Os Estados Unidos e a Turquia também hesitam. A Rússia e a China só não hesitam porque, nestas questões, substituem a política pelo dogma da não-intervenção. Um luxo de que a Europa não goza, e por boas razões.
A ousadia levaria a Europa a prosseguir algumas das posições já adoptadas até às últimas consequências. Tendo já reconhecido os opositores ao regime de Tripoli como "interlocutores políticos válidos" e tendo já afirmado que Kadhaffi não tem condições para continuar no poder, utilizaria todos os meios disponíveis para mudar o governo na Líbia, mantendo o país unido. Teria que envolver certamente o uso da força militar, através da liderança franco-britânica. Se o fizesse, a Europa marcaria alguns pontos. Seria, desde logo, a sua emancipação estratégica, como as restantes potências mundiais, incluindo os Estados Unidos, a perceberem que a Europa conta no plano geopolítico. Além disso, actuando em cooperação com a Liga Árabe (também já reconheceu a ilegitimidade de Kadhafi e já defendeu a imposição de uma zona de exclusão aérea), reforçaria o seu papel no processo de transformação política da região. Por fim, evitaria um potencial embaraço: a manutenção de Kadhafi no poder. O risco da ousadia é apenas um, mas que obriga a pensar, e muito: fazer uma guerra contra o regime líbio. Quer e pode a Europa começar uma guerra no Norte de África, mesmo em coligação com a Liga Árabe?
Chegamos assim à prudência. Como têm apontado alguns líderes europeus, é necessária mais informação sobre o que passa no terreno e sobre os grupos que combatem Kadhafi. É um erro olhar para a situação na Líbia com as mesmas lentes com que se olha para o Egipto e a Tunísia: não há uma revolução democrática, mas uma guerra civil. Os rostos da oposição a Kadhafi são alguns dos seus antigos ministros, dificilmente uma qualificação democrática.
A possível imposição de uma zona de exclusão aérea também exige muito cuidado. Mesmo que seja considerada como uma missão para fins de ajuda humanitária, constitui um acto de guerra. Quais serão os custos militares, políticos e humanitários? Será uma estratégia eficaz para impedir mortes de civis líbios e de refugiados? Além disso, qual seria a estratégia de saída? Recordam-se do caso do Iraque após a Guerra do Golfo de 1991? Muitos afirmaram que seria uma questão de tempo até Saddam ser afastado do poder. Manteve-se no poder, mas perdeu legitimidade política, que nunca mais recuperou. Pode passar-se o mesmo com Kadhafi. A guerra civil líbia pode durar muito tempo (anos e não meses). As divisões tribais e a concentração da produção de petróleo nas regiões leste e oeste do país criam as condições para uma guerra civil duradoura. E Kadhafi pode continuar no poder em Tripoli (anos e não meses). Teríamos um Iraque no Mediterrâneo: um líder político sem legitimidade externa e como factor de instabilidade na região e na Europa. Deverá ser este o primeiro objectivo da Europa: evitar uma situação semelhante à do Iraque entre 1991 e 2003. Só há dois caminhos: muita ousadia ou muita prudência.