João Marques de Almeida

Facebook no Mediterrâneo
Diário Económico, 7|Março|2011

Com as revoluções no Norte de África, surgiram, inevitavelmente, dois argumentos sobre o que irá acontecer.

Os mais reaccionários garantem que o Egipto, a Tunísia, e outros que fizerem a revolução, seguirão o caminho do Irão, em 1979. As alternativas às ditaduras serão outras ditaduras, desta vez Islâmicas. Nada se passou no mundo, nem nos países muçulmanos, entre 1979 e 2001. Ou seja, é um argumento que não tem em conta, nem sabe lidar com as mudanças. As soluções de então continuam a ser as soluções de agora.

Os mais idealistas identificam revoltas contra ditaduras com democracia. Não são a mesma coisa. Um diplomata russo - e a Rússia tem alguma experiência com revoluções -afirmou há umas semanas que por vezes as revoluções começam "como em Fevereiro de 1917" e acabam "como um Outubro de 1917". No século XIX, um dos maiores estudiosos de revoluções, Tocqueville, afirmou que "a parte mais difícil de inventar numa revolução é o fim". Não é inevitável passar-se da revolução à democracia, como pensam muitos europeus, especialmente aqueles dos países que não sabem, há muito tempo, o que é uma revolução.

O desafio será encontrar um ponto de equilíbrio. Antes de mais, é claro que a região que vai de Marrocos ao Irão, com velocidades e processos diferentes, está a passar por uma grande transformação política. Em segundo lugar, é também óbvio que se assiste a uma forte revolta contra as autoridades tradicionais, incluindo movimentos islâmicos. Assistimos sobretudo a revoluções de cidadania e de dignidade. As pessoas querem gozar direitos e viver com dignidade. Estão fartas de serem controladas e tratadas como "crianças", em que a "maioridade política" não passa de uma miragem. E viram exemplos em todo o mundo, da Turquia à Ásia, passando pela América Latina e África, onde centenas de milhões de pessoas (que não são europeus nem norte-americanos) conquistaram liberdade e prosperidade. A maioria dos árabes e dos iranianos quer simplesmente o mesmo: uma vida relativamente livre e digna.

Um egípcio baptizou a sua filha, nascida durante os protestos do Cairo, de "Facebook". Eis a melhor ilustração do que se passou. O Norte de África e o Médio Oriente estão a deixar de viver isolados do mundo. Já não são uma "excepção" (como julgam aqueles que os condenam ao destino "do Irão em 1979"). Quando as ditaduras deixam de ser capazes de isolar os seus cidadãos, e estes começam a comunicar livremente com o resto do mundo e uns com os outros, estão condenadas.

Será o resultado de tudo isto, uma vaga de democratização? Não sabemos. E algum cepticismo é salutar. O maior perigo será a emergência de regimes anti-ocidentais (e não têm que ser necessariamente islâmicos). Também já se percebeu que a transformação política será um processo longo e complicado. Serão anos e não meses. Por fim, é igualmente claro que serão as populações do Norte de África e do Médio Oriente a definir o seu futuro. E serão elas a decidir como e quando vão necessitar do apoio ocidental.