João Marques de Almeida

Lições Árabes
Diário Económico, 28|Fevereiro|2011

A primeira lição diz respeito aos limites da ‘realpolitik’. Após um certo adormecimento do debate sobre a relação entre interesses e valores, as revoltas do Norte de África acordaram a discussão.

O primeiro objectivo não deve ser simplesmente atacar os governos, só não comete erros quem não faz política externa, mas chamar a atenção para questões que não podem ser ignoradas. Parece-me óbvio que para prosseguir determinados interesses estratégicos, um governo terá que se relacionar com regimes autoritários. No caso de Portugal, há um consenso de que o Norte de África é uma região de interesse estratégico. Nesse sentido, qualquer governo português terá que trabalhar com as autoridades locais.

No entanto, terá que haver um equilíbrio entre a defesa dos interesses estratégicos e a fidelidade a valores democráticos. Só assim se chega a um entendimento correcto da razão de estado democrático. Os problemas começam quando há um desequilíbrio a favor da ‘realpolitik'. É óbvio que isso aconteceu nas relações entre alguns governos europeus e as ditaduras do Magrebe. Pode prosseguir-se prioridades estratégicas sem se entrar no domínio privado da cumplicidade e até da amizade. É possível defender interesses económicos sem se descurar os valores políticos. Há um ponto que nunca pode ser ignorado pelos líderes políticos das democracias. Um governo democrático é mais do que ele próprio. Tem obrigações que resultam do modo como chegou ao poder. Se não deve intervir na vida interna das ditaduras, também não pode atraiçoar os princípios fundamentais do seu sistema político. Além disso, legitimar ditaduras, com proclamações de amizades, é também uma forma de intervenção na política interna: reforça o poder do ditador contra o seu povo.

Por fim, os governos democráticos colocam-se numa posição delicada. Como mostram as actuais revoluções, quando os povos se viram contra ditadores, os governos eleitos democraticamente só têm uma escolha: estar ao lado dos povos. Renegam assim o seu aliado de ontem e perdem credibilidade perante os governos de amanhã. Convém que a lição da Líbia sirva para o futuro relacionamento com a Venezuela. Tal como Qaddafi, também Chavez um dia irá enfrentar a revolta do seu povo. E, tal como agora, o governo português não terá escolha.

2. Os acontecimentos no Magrebe e no Médio Oriente constituem uma oportunidade para a conclusão da reconciliação transatlântica, após as divisões causadas pelo Iraque. A autoria franco-britânica da Resolução no Conselho de Segurança da passada sexta-feira reveste-se de um enorme simbolismo político. Os líderes dos campos que dividiram a Europa em 2003 estão agora juntos. As conversas telefónicas transatlânticas, entre Obama, Cameron e Sarkozy confirmam a reconciliação. Mais importante, as esquerdas e as direitas moderadas ocidentais também se reencontram sobre a importância do apoio à democracia e aos direitos humanos.

Nestes momentos, os limites do ‘soft power' da China tornam-se claros. Não tem nada a oferecer aos povos que lutam pela liberdade. A potência socialista só consegue apoiar o capitalismo (e já não é mau), não consegue ajudar a democracia. Quando se chega às reformas políticas, o verdadeiro G2 é entre a Europa e os Estados Unidos.

3. Para concluir, três curtas observações que obrigam a reflectir. Se não tivesse havido a guerra do Iraque, o antigo regime de Bagdad estaria muito provavelmente a enfrentar a revolta do seu povo. Saddam e os seus filhos teriam reagido como Qaddafi e os seus filhos.

As mudanças no sul do Mediterrâneo concluem a retirada da Rússia da região e a chegada (ou o regresso) da Turquia. Eis, uma das grandes alterações estratégicas do início do século XXI, e que obriga uma reflexão nas capitais europeias.

Israel não é o problema do Médio Oriente. Os problemas são os ditadores e os regimes que tratam os seus povos como súbditos e não como cidadãos. Os cidadãos palestinianos de Israel têm mais direitos do que a maioria das populações dos outros países da região.