João Marques de Almeida

Ocidente e Médio Oriente
Diário Económico, 21|Fevereiro|2011

Os protestos e as revoltas do Médio Oriente não têm nada a ver com as Revoluções de 1989 na Europa de leste. Nos antigos países comunistas, a queda dos regimes significou democracia-liberal e alinhamento estratégico com o Ocidente.

No Médio Oriente não é certo que se passe o mesmo. Existem oposições não-democráticas que rejeitam alianças com os países ocidentais. Dito de outro modo, as Revoluções anti-comunistas foram pró-ocidentais; nas revoltas do Médio Oriente, há movimentos fortemente anti-ocidentais. Esta diferença é fundamental e exige que se compreenda uma verdade simples. No Médio Oriente, o fim das ditaduras e a democracia não significam automaticamente governos aliados dos Estados Unidos e da Europa. As comparações com 1989 podem esconder este ponto essencial.

Entendemos assim as dificuldades que a administração norte-americana e os governos europeus enfrentam. Por um lado, a legitimidade política das ditaduras aliadas da região está fortemente abalada, o que significa que a estratégia de apoio a esses ditadores, iniciada no pós-Guerra, está a chegar ao fim. Por outro lado, o Médio Oriente continua a ser muito importante para os Estados Unidos e para a Europa. Uma deriva anti-ocidental nos países mais influentes seria um desastre.

Do Marrocos ao Irão, nada ficará na mesma. Os antigos regimes estão a cair ou terão que se reformar profundamente. A resistência à mudança deixou de ser uma solução realista. Para o "pós-antigo regime", o confronto será entre forças políticas que querem trabalhar com os países ocidentais e movimentos anti-ocidentais. Sendo comum a quase todos os países da região, o confronto regional vai decidir-se, no essencial, no Egipto e no Irão. A administração Obama já o percebeu. Daí, a determinação com que tem agido no Egipto e o apoio imediato às forças da oposição durante os recentes protestos no Irão. Também já entendeu que enfrenta o maior desafio em política externa desde que chegou ao poder. E, dadas as enormes dificuldades, tem agido bem e com rapidez.

Com a atenção política a virar-se para o confronto sobre a natureza interna dos regimes políticos, ficará mais claro que o verdadeiro problema da região é a política externa do regime iraniano e não o conflito entre Israel e os palestinianos. O governo de Teerão é o líder das coligações anti-ocidentais do Médio Oriente. Israel tem cometido erros e tem alguma responsabilidade pelo impasse no processo de paz, mas é o país mais pró-ocidental da região. A administração norte-americana não tem dúvidas sobre este ponto crucial. No Ocidente, aqueles que não entendem a diferença entre o Irão e Israel não só andam verdadeiramente equivocados, como atraiçoam os seus próprios valores políticos. Mais do que nunca, uma estratégia transatlântica no Médio Oriente, de apoio às forças pró-ocidentais, é vital. Eis o grande desafio estratégico para o Ocidente: ajudar as reformas e as mudanças políticas de modo a garantir governos pró-ocidentais. Fazê-lo com sucesso, será uma prova de força. Esconder-se atrás do argumento da não-intervenção, para não o fazer, será uma demonstração de fraqueza.