João Marques de Almeida

A “Agenda da Liberdade”
Diário Económico, 14|Feverriro|2011


Recordam-se da “agenda da liberdade” de George W. Bush e dos famosos (e, para muitos, infames) neo-conservadores?

No caso do mundo muçulmano, afirmava dois princípios. Em primeiro lugar, as ditaduras não promovem estabilidade; pelo contrário, criam o radicalismo. Em segundo lugar, não existe uma contradição de fundo entre a religião muçulmana ou a cultura árabe e a democracia e a liberdade. Os acontecimentos da Tunísia e do Egipto parecem demonstrar que Bush tinha alguma razão. Os regimes de Mubarak e de Bem-Ali não produziram estabilidade e os árabes muçulmanos estão a lutar pela sua liberdade.

Claro que Bush perdeu muita da razão com a intervenção no Iraque. A guerra mostrou que não se pode promover a democracia através da força militar. Mas as ideias da "agenda da liberdade" são muito mais antigas do que Bush, e continuarão muito para além da sua vida política. Uma das virtudes da revolução no Egipto foi ter permitido a reconciliação dos adversários e críticos de Bush, no Ocidente, com a "agenda da liberdade". É interessante ver os "neo-conservadores" americanos ao lado da esquerda europeia a apoiar a democracia no Egipto (leiam, por exemplo, a "Weekly Standard").

Infelizmente, a oposição às ideias defendidas pela administração Bush (mas não as ideias dela) e os custos das suas políticas deram alguma legitimidade, entre a guerra do Iraque e a revolução egípcia, às ditaduras. Agora é muito fácil criticar os governos europeus e Washington por terem apoiado as ditaduras tunisina e egípcia. Mas durante os últimos anos, muitos que agora se chocam com esses apoios, criticaram duramente a promoção da democracia e defenderam o diálogo com os ditadores. No essencial, qual é a diferença entre os regimes de Mubarak e de Chavez? No que conta, a revolução de Chavez é em tudo semelhante à revolução de Nasser. Depois de Nasser, veio Sadat e depois de Sadat veio Mubarak. Se Chavez tiver sucesso, a Venezuela daqui a trinta anos será como o Egipto de hoje.

Em nome da verdade, é importante dizer que, desde a subida ao poder de Mubarak, a administração Bush foi a que mais pressionou o regime egípcio para se reformar. Desde pressões políticas até sanções económicas, diminuindo mesmo o apoio militar. Depois, chegou Obama e escolheu o Cairo para fazer o discurso de reconciliação com o mundo islâmico. E na altura ninguém queria promover a democracia, e quase todos desejavam o diálogo com os ditadores, do Mubarak ao Mugabe, do Chavez ao Kadhafi. Há verdades que custam.

O facto das ditaduras fomentarem o radicalismo e a vontade das populações árabes lutarem pela liberdade pode não ser suficiente para o triunfo da democracia. Muitos no Ocidente receiam a repetição do Irão, em 1979 ou da Argélia, em 1991; e esse perigo existe. Mas há outro exemplo mais recente que nos pode dar alguma esperança. Querem saber qual foi o país árabe onde se realizaram, mais do que uma vez, eleições livres e os partidos seculares e islâmicos moderados ganharam aos partidos radicais islâmicos? Exacto. O Iraque. Quem sabe se, em vez do Irão, os egípcios não seguirão o exemplo dos iraquianos.