João Marques de Almeida

Notas
Diário Económico, 8|Novembro|2010

1. É a verdade e dói muito: o Presidente chinês veio dar dinheiro para ajudar as contas públicas portuguesas. Nunca pensei ver isto. Para alguns, o FMI nem pensar; mas a China não faz mal.

Portugal é, neste momento, um Estado social falhado (e falido) que precisa do apoio de uma potência mundial que, ironicamente, nega os direitos sociais elementares à maioria dos seus cidadãos. Parecemos a nobreza falida do século XIX: vendemos o pouco que nos resta à "burguesia emergente" para sobreviver. É muito triste.

2. O Brasil pode ser uma potência emergente e os Estados Unidos uma potência em (relativo) declínio. Mas a democracia brasileira ainda está a milhas da democracia norte-americana. A comparação entre as recentes campanhas eleitorais nos dois países não deixa dúvidas. Nos Estados Unidos, há competição, debate ideológico, cidadãos a lutar pelas suas liberdades e resistência ao poder do Estado e do governo. No Brasil, há discussões e querelas pessoais, conformismo e um Presidente a escolher o vencedor das eleições. Nisto, não há dúvida que o Brasil é um verdadeiro "BRIC": Lula fez com Dilma o que Putin tinha feito com Medvedev. Apesar desta triste e fraca campanha, devo dizer que desejo um futuro político cheio de sucesso ao Brasil. Se um dia o Brasil conseguir construir uma democracia com a vitalidade e a pujança dos Estados Unidos será uma potência extraordinária.

3. A consciência democrática custa a pegar no nosso país. A propósito do orçamento, choveram apelos a um "consenso rápido", como se a divergência e a competição política fosse um crime. Não é. É a essência da democracia. À oposição pede-se que se oponha ao governo.
E a este que dificulte a vida à oposição. A crise financeira não pode por em causa a vida democrática. Aliás, se chegámos aqui, foi também devido à fraqueza consensual, e não à força competitiva, da nossa democracia. Outro ponto a registar. Há pouco mais de um mês, quando se discutia a revisão constitucional, a liderança do PSD estava entregue a um "perigoso grupo de radicais liberais". Depois do acordo sobre o orçamento, algumas das mesmas vozes dizem que o líder do PSD é quase uma "alma gémea" do primeiro-ministro. As crises confundem. Não há dúvida. Por isso, virtudes como a lucidez e a frieza serão decisivas, nos tempos que correm, para os líderes políticos.

4. O Presidente da República iniciou a sua campanha para a reeleição. A sua vitória será fundamental para o futuro do país (e este não é um tempo para se brincar com coisas sérias). Como é óbvio o PSD e o CDS (decisivo a evitar uma candidatura à direita) estão a apoiá-lo. No entanto, há vozes de direita a criticar o actual Presidente da República. Estão erradas. Desde logo porque não é a direita e a esquerda que estão em confronto nesta campanha. Mas sim um candidato reformista (Cavaco) contra um candidato reaccionário (Alegre). As reformas que um futuro governo de centro-direita terá que fazer exigem a presença de Cavaco Silva em Belém durante mais cinco anos.