João Marques de Almeida

A verdade
Diário Económico, 16|Agosto|2010

Neste momento, a divisão mais importante na vida política deixou de ser entre a direita e a esquerda, ou entre o Estado e a sociedade civil, mas entre a verdade e a mentira.

Entre aqueles que dizem a verdade e os que continuam a enganar. Um dia, o primeiro-ministro luxemburguês, Jean-Claude Juncker, exprimiu a dificuldade de dizer a verdade: "sabemos como fazer as reformas necessárias, só não sabemos como ganhar as eleições depois". Durante a última década, muitos líderes europeus, quer à direita como à esquerda, têm seguido a máxima de Juncker. Não dizem a verdade, com medo de perder eleições; iniciam as reformas inadiáveis, sob "pressão" da "Europa" ou dos "mercados"; e esperam que um milagre (ou será a "mão invisível do mercado"?) traga a "retoma" de modo a evitar a "zanga do povo" e uma derrota eleitoral.

A táctica "Junckeriana" foi funcionando enquanto a situação permitia; mas agora já não serve. O ski na neve (parece que está na moda entre alguns políticos) é um bom exemplo. Para aqueles que fazem ski a "enganar" as pista, uma descida "azul" ou mesmo "vermelha" (se não for muito inclinada) serve para a técnica rudimentar. Mas quando se vai a uma pista "preta" já não se pode enganar; é o momento da verdade. É nesta situação que está a política europeia. Há uma pista "preta" à nossa frente. Com verdade, podemos chegar ao fim; a enganar, o trambolhão será grande e doloroso.

A política da verdade deve começar por dizer que os tempos difíceis vão durar e não acabarão rapidamente. Pode afirmar que é necessário trabalhar mais e melhor para continuarmos a viver bem. Se trabalharmos menos e pior, seremos mais pobres, porque o resto do mundo trabalha cada vez melhor e mais. Deve ainda declarar, de um modo muito claro, que os Estados europeus não podem gastar mais do que produzem e acumular dívidas. Se o fizermos, estamos completamente dependentes dos mercados ou dos fundos soberanos chineses e árabes. E quem está dependente do dinheiro dos outros, para estudar, para ir ao médico e para receber a reforma, deixa de ser independente. Deve avisar que não há coesão social se as desigualdades económicas e o desemprego dos jovens continuarem a aumentar. Deve igualmente obrigar os grandes grupos económicos e financeiros a contribuírem para a justiça social. Parte dos lucros devem ser dirigidos para políticas sociais a favor dos seus trabalhadores, o que certamente ajudaria a aliviar o "Estado social". E sobretudo dizer que os "direitos adquiridos" não são "direitos naturais", mas que resultam de uma situação priviligiada que deu trabalho a adquirir, e só será mantida com mais trabalho e mais liberdade económica.

Vivemos um momento semelhante à década de 1950, quando se definiu o Estado europeu do "pós-guerra". Esse "Estado" esgotou-se e terá que ser redefinido. Quem tiver a coragem para dizer estas verdades e a lucidez e a capacidade para traçar o caminho da mudança, estará no poder durante grande parte da década que se iniciou este ano.