João Marques de Almeida

A coligação
Diário Económico, 10|Maio|2010

Vivem-se tempos extraordinários no Reino Unido. Com um sistema eleitoral favorável a maiorias absolutas, as eleições deram uma maioria relativa ao partido vencedor, a segunda vez desde 1945.

Para responder a esta situação, os conservadores e os liberais estão a discutir um governo de coligação; nunca visto, de novo, desde 1945. Ou seja, estamos a assistir a acontecimentos políticos tradicionalmente associados a guerras, sem ter havido uma guerra. O que aliás diz muito sobre a política europeia no início da segunda década do século XXI.

No momento em que escrevo (Sábado), não se sabe qual será o desfecho das negociações entre conservadores e liberais. Tendo em conta os resultados eleitorais, um acordo entre os dois partidos é o que faz sentido. O partido Conservador foi o mais votado e, com o partido Liberal, consegue uma maioria absoluta (ao contrário de uma coligação entre trabalhistas e liberais). O líder dos conservadores, David Cameron, já ofereceu um governo de coligação aos liberais. Acrescentou ainda que é urgente chegar-se a um acordo. A crise económica não permite negociações demoradas. Será mesmo o argumento mais poderoso para convencer os militantes de ambos os partidos, muitos deles contra um acordo de coligação. As negociações devem concluir-se durante o dia de hoje (com ou sem acordo).

Há razões favoráveis a um acordo. Em relação ao passado, as lideranças de ambos os partidos estão hoje muito mais próximas. Cameron levou o seu partido para o centro, e Nick Clegg vem da ala mais à direita dos liberais. Além disso, são da mesma geração, o que coloca Clegg naturalmente mais próximo de Cameron do que de Gordon Brown, o líder trabalhista. Os conservadores e os liberais partilham posições em relação à necessidade de reduzir o peso do Estado na economia e na sociedade, de combater o défice, à redução da carga fiscal, e de proceder a reformas substanciais na educação. Nas áreas económicas e sociais, não será difícil chegar a um acordo.

A política europeia, apesar de posições tradicionalmente opostas entre os dois partidos, também não será um obstáculo. O maior problema seria a possibilidade de uma eventual adesão ao Euro, à qual se opõe o Partido Conservador. No entanto, os liberais já disseram que a questão não se coloca neste momento. Na relação com a União Europeia, o pragmatismo vai prevalecer.

A questão mais complicada será a reforma do sistema eleitoral. Os liberais querem adoptar o método de representação proporcional. É forçoso reconhecer que alguma coisa não está bem quando os liberais alcançam 23% dos votos, mas apenas 10% de deputados. Todavia, a solução não é simples. Com a representação proporcional, será muito mais difícil algum partido alcançar uma maioria absoluta. O grande beneficiado seria o partido Liberal, porque se tornaria necessário para a formação de governos maioritários. Se o actual sistema eleitoral tem servido, na prática, para manter os liberais fora do poder, a representação proporcional poderia permitir que estivessem quase sempre no governo, mesmo sendo o terceiro partido. Entende-se que queiram mudar o sistema eleitoral. Pelas mesmas razões, também se compreende que os conservadores não queiram.