João Marques de Almeida

O futuro de Angola
Diário Económico, 3|Maio|2010

Na semana passada, estive cinco dias em Luanda. Desloquei-me a convite do Instituto de Formação Avançada para Executivos, liderado pelo professor Mário Pinto de Andrade, para ensinar um curso de relações internacionais e fazer uma palestra sobre as relações entre a União Europeia e África.

Devo dizer que fiquei muito bem impressionado. Estava à espera de ver uma cidade em muito pior estado daquela que encontrei. Os convidados como eu são, naturalmente, poupados a verem os locais mais pobres, e há muitos numa cidade com o triplo da população da que deveria ter (cerca de seis milhões). Com excepção do transito caótico, o centro encontra-se relativamente arranjado e com obras de novos edifícios por todo o lado.

Mas o que mais me impressionou foi a vontade de aprender, a abertura para debater e a confiança no futuro. Percebe-se bem que estamos num país que saiu há oito anos de mais de vinte e cinco de guerra civil. Simultaneamente, existe uma clara consciência sobre a natureza dos problemas que Angola enfrenta. A vida política será marcada, nos próximos anos, pela necessidade de se construir um Estado eficaz, capaz de garantir a segurança e a ordem, e o desejo de mais democracia e liberdade. A longo prazo, ambos os objectivos serão compatíveis e reforçam-se mutuamente. Não há democracias sem Estados fortes, e a legitimidade do Estado angolano beneficiará se for capaz de construir um sistema democrático e pluralista. No entanto, o caminho terá tensões e até alguns choques entre o Estado e a democracia. A sensatez e a capacidade políticas serão fundamentais.

No plano económico e social, o fortalecimento das elites e de grupos empresariais terá que ser acompanhado pela formação de uma classe média importante e pela diminuição da pobreza. A legitimidade do desenvolvimento do país e a estabilidade social exigem que todos beneficiem do crescimento económico. Um aumento da pobreza e do fosso entre ricos e pobres trará instabilidade e conflitos sociais. No caso da política externa, é necessário entender devidamente o interesse nacional angolano. Em Portugal e na Europa em geral, nota-se por vezes alguma preocupação em relação à aproximação entre Angola (e outros países africanos) e a China. É uma preocupação injusta e exagerada. Injusta, porque se o governo angolano (como qualquer outro) entende aproximar-se da China, ninguém deve criticar tal decisão. A emergência de novas potências aumenta a liberdade diplomática da maioria dos países. Como é óbvio, vão aproveitar e explorar essa liberdade. Em vez de nos queixarmos, devemo-nos habituar a esta nova realidade estratégica. A preocupação é igualmente exagerada. Em relação a Angola, nenhum outro país possui as vantagens de que goza Portugal. Basta passar cinco dias em Luanda, para se perceber que a relação entre Angola e Portugal será sempre especial. Há um bom critério para verificar a aproximação entre dois países: o número de voos entre as duas capitais. Há catorze voos semanais entre Lisboa e Luanda. Nem os vizinhos de Angola se aproximam desse número. O poder e os interesses contam muito. Mas não substituem uma história e uma língua comuns. Para o mal e para o bem.