João Marques de Almeida

Compreender a Alemanha
Diário Económico, 19|Abril|2010

A propósito da resposta à “crise económica”, há muitas vozes a criticarem o governo alemão.

As duas críticas mais comuns são, por um lado, um excessivo "nacionalismo", acompanhado de um "insuficiente europeísmo", por parte de Berlim; e por outro lado, a ausência de solidariedade da parte do "maior exportador" entre os 27 e, portanto, do país que mais beneficia do mercado único europeu.

Há alguma justiça nestas críticas, mas há igualmente algum exagero e, sobretudo, nota-se alguma incompreensão em relação ao que se passa na Alemanha. Se é verdade que os alemães exibem, nos dias que correm, uma certa fadiga da Europa, será um exagero olhar para a Alemanha como um país "eurocéptico e nacionalista", como têm afirmado alguns observadores. As elites alemãs sabem perfeitamente que o agravamento da "crise económica" afectará seriamente a economia do seu país. E, por isso, estão conscientes de que há um "problema europeu", e não apenas problemas nacionais.

Devemos, contudo, entender as relutâncias da Alemanha. Em primeiro lugar, num plano mais político e imediato, há as eleições regionais no maior ‘lander' alemão, no próximo dia 9 de Maio. Com a maioria da população (ou seja, a maioria do eleitorado) contra uma ajuda económica à Grécia, o governo tem que ser prudente. Além disso, as eleições são muito importantes. As sondagens colocam a coligação que governa o ‘lander' (tal como no plano nacional, composta pela CDU e pelos liberais) com um avanço muito reduzido. Se o centro-direita for derrotado nas eleições, perderá igualmente a sua maioria na Câmara Federal, o que impossibilitará grandes iniciativas legislativas, sem se negociar com a oposição. Na prática, seria o regresso da "grande coligação" e um claro enfraquecimento do governo pouco mais de seis meses depois de ter chegado ao poder. Os governos dos países que possam ver os seus problemas económicos agravarem-se devem começar por olhar com atenção para o calendário eleitoral alemão.

Há ainda, um segundo plano, mais profundo e com maiores consequências a prazo. O que pensa o cidadão comum alemão quando pensa nos últimos vinte anos da vida do seu país e no resto da Europa? Sente, com mais ou menos orgulho, que foi feito um grande esforço para integrar a antiga "república soviética alemã" na Alemanha reunificada e conhece bem os esforços e as reformas económicas e sociais que foram impostas pelos vários governos, incluindo pela coligação de centro-esquerda, SPD-Verdes, entre 1998 e 2005. Entretanto, olha à sua volta, e vê que muitos dos seus parceiros europeus não fizeram as reformas que deveriam ter feito. Por sinal, os países que menos reformas fizeram são os que estão em pior situação económica. Por exemplo, o que pensarão os alemães quando verificam que trabalham, em média, mais dez anos do que os gregos?

Mas as dúvidas germânicas não se limitam à Grécia. O que mais os preocupa são as diferenças na cultura económica em relação à segunda maior economia da zona Euro, a França. Não o dizem, mas sabem muito bem que a França tem adiado as reformas que a Alemanha já fez. E, além disso, como se sabe, os alemães arrepiam-se com o modo como a França trata a relação entre finanças públicas e crescimento económico. A inflexibilidade alemã em relação às regras da União Monetária explica-se, em grande parte, pelo facto de não confiar inteiramente no seu grande parceiro do Euro.