João Marques de Almeida

‘Solidarnosci’
Diário Económico, 12|Abril|2010

Perante a tragédia que ocorreu em Smolensk, a primeira reacção é de exprimir solidariedade com a Polónia.

A morte do Presidente polaco, Lech Kaczynski, e de outros alto-representates do Estado constitui uma das maiores tragédias da história recente do país. Como afirmou o primeiro-ministro, Donald Tusk, foi a maior tragédia da história polaca desde 1945.

A vida política de Kaczynski foi extraordinária, mas também injustamente incompreendida, principalmente desde que foi eleito Presidente. Iniciou a sua oposição ao regime comunista polaco ainda durante a década de 1970. Foi membro do Solidariedade e muito próximo do líder histórico, Lech Walesa, tendo sido preso em 1981, quando foi imposta a lei marcial. No início deste século, juntamente com o seu irmão gémeo, Jaroslav Kaczynski, fundou o PiS (Direito e Justiça), sendo eleito Presidente em 2005, e ajudando o seu partido a ganhar as eleições legislativas de 2006. Percorreu assim, como um dos protagonistas principais, os últimos trinta anos da vida política polaca.

Foi também bastante incompreendido, principalmente desde que a Polónia aderiu à União Europeia, em 2004. Sempre à procura de "anti-europeistas" que possam criticar sem piedade, alguns círculos "bem-pensantes" e politicamente correctos do ‘Brussles beltway' não perdiam uma oportunidade para o atacar. Não perdoavam, obviamente, o seu patriotismo, o seu conservadorismo e o seu Catolicismo (uma espécie de trindade maldita para a intolerância desses "bem-pensantes"). Claro que nunca lhes ocorreu que um conservador e Católico polaco tenha feito mais pela liberdade de milhões de cidadãos de que todos os "bem-pensantes" juntos no seu conforto pequeno-burguês.

Como lhe competia, e como fazem todos os governos europeus, defendeu intransigentemente o interesse polaco durante as negociações do Tratado de Lisboa. No entanto, juntou sempre a essa intransigência uma atitude construtiva, acabando por desempenhar um papel positivo na fase final da ratificação do Tratado. Era um homem de palavra e cumpriu-a até ao fim. Demonstrou ainda uma enorme flexibilidade política, nomeadamente após a eleição do governo de Tusk.

Apesar de uma grande desconfiança em relação à Alemanha e à Rússia, decidiu ajudar a política de reconciliação do actual governo com os seus dois vizinhos. Foi precisamente o contexto de uma aproximação entre a Polónia e a Rússia que levou o Presidente Kaczynski a deslocar-se a Katyn. Iria participar nas celebrações do assassínio de vinte mil polacos, pelas forças soviéticas, em 1940. Eis o exemplo que Lech Kaczynski deixa à Polónia e à Europa: um patriota polaco disposto a perdoar o passado para se reconciliar com a Rússia. E não poderia ser um legado melhor, para um projecto político que tem na sua base a reconciliação entre antigos inimigos.