João Marques de Almeida

Parceria de conveniência
Económico, 22|Fevereiro|2010


A preocupação com o declínio, inteiramente legítima, leva muitos na Europa a entender a política mundial em termos de expansão das novas potências (a inflação do termo BRICS não pára de crescer) e de uma competição entre o “Ocidente e o resto”.

Parece, muitas vezes, que o "resto" é quase uma entidade homogénea, sem divergências e à prova de rivalidades estratégicas. Ora, as coisas não são assim.

Olhemos, por exemplo, para as relações entre a Rússia e a China. Nas interpretações ocidentais, surgem muitas vezes como uma parceria estratégica unida contra o Ocidente. É verdade que Moscovo e Pequim desejam limitar o poder norte-americano e, por isso, recorrem a uma retórica semelhante. Quando se encontram, os seus líderes proclamam interesses comuns. Mas isto não passa de uma parceria de conveniência, muito longe de uma suposta parceria estratégica.

O entendimento entre os dois é mais limitado do que por vezes se julga. Têm interesse em reforçar as relações comerciais e fazer acordos na área da energia, mas pouco mais. Apesar da retórica a favor do "mundo multipolar", olham para os Estados Unidos de um modo muito diferente. Moscovo continua a ver a sua relação com Washington sobretudo em termos de defesa e segurança. Para Pequim, a prioridade são as relações económicas.

Além disso, a cooperação limitada coexiste com uma profunda desconfiança mútua (de séculos) e rivalidade estratégica. Partilham, desde logo, a maior fronteira terrestre do mundo, o que para duas potências nacionalistas, é sempre um factor de perturbação. Com a agravante de que no extremo-oriente do território russo, habitam neste momento cerca de 6.5 milhões de russos (com tendência para diminuir) e no outro lado da fronteira (nem sempre bem definida), vivem 108 milhões de chineses (com tendência para aumentar). A situação levou um dia um diplomata russo a afirmar que os chineses chegam "às nossas fronteiras em pequenos grupos de cinco milhões".

A Ásia Central tornou-se um palco de enorme competição estratégica entre Pequim e Moscovo. Obcecada em conter a presença militar norte-americana na região, a Rússia é incapaz de travar a expansão chinesa numa das esferas de influência do chamado "estrangeiro próximo". Não só aumentam os investimentos chineses nos países da Ásia Central, como estes tornaram-se importantes fornecedores de energia para a China.

A competição estratégica tenderá a intensificar-se, mas prior do que isso, do ponto de vista russo, é o facto das relações de poder entre os dois ser cada vez mais favorável à China. Há um exemplo recente impressionante. A necessidade de liquidez financeira da Rússia levou-a a celebrar um acordo de venda de 300.000 barris de petróleo por dia à China entre 2011 e 2030, pela soma de 25 biliões de dólares. Feitas as contas, cada barril custará 20 dólares (menos de metade do preço actual). A inversão de poder entre as duas constitui uma das evoluções geopolíticas mais significativas das últimas décadas. Como afirmou recentemente um analista russo, "a Rússia está condenada a ser o parceiro júnior da China". Não faltará muito até chegar o dia em que Moscovo olhará para o Ocidente por causa do poder da China.