João Marques de Almeida

E Obama desceu à terra
Diário Económico, 30|Janeiro|2010


Muitos se interrogam, quem é Obama? A questão, à primeira vista, pode parecer absurda.

Afinal, o presidente norte-americano acabou de celebrar o primeiro aniversário na Casa Branca. Não foi eleito há dois meses. Além disso, a sua biografia é conhecida em todo o mundo. Filho de mãe norte-americana e pai queniano, foi educado durante grande parte da sua juventude pelos avós maternos na ilha do Havai, com um pequeno intervalo em que viveu na Indonésia. Brilhante aluno de Direito na Universidade de Harvard, iniciou a carreira política em Chicago, tendo sido eleito para o Senado, antes de ganhar a nomeação como candidato do Partido Democrata às eleições presidenciais de 2008. Talvez seja a história política mais conhecida em todo o mundo. No entanto, insisto, o que pensa verdadeiramente o Presidente Obama?
Nas áreas económica e social, irá governar mais à esquerda, seguindo os desejos de grande parte da sua base de apoio no partido, ou irá governar com a ala mais à direita dos democratas, maioritária no Congresso? As últimas eleições estaduais foram um aviso para os democratas. Ainda no ano passado, perderam na Virgínia e em Nova Jérsia, estados onde Obama ganhou as presidenciais. Já este ano, há duas semanas, aconteceu o impensável: os democratas perderam o senador por Massachusts, o que nunca tinha acontecido desde o fim da Segunda Guerra Mundial. O impacto foi terrível. Fez muitos Representantes democratas recordarem que foram eleitos com os votos de centristas e de republicanos desiludidos com o anterior Presidente. Com o apoio ao presidente Obama a descer nas sondagens, principalmente entre chamados os eleitores independentes, os democratas no Congresso vão querer um "governo" à direita, para garantirem os lugares. Ou seja, os próximos três anos da presidência Obama irão concentrar-se nos votos do centro.

Obama e o mundo
Se a política interna tenderá a seguir um equilíbrio entre as várias tendências com vista aos próximos actos eleitorais (Congresso em 2010 e Congresso e Presidenciais em 2012), em relação à política externa, as dúvidas persistem. Será Obama um internacionalista, como sugerem a maioria dos seus discursos ou, pelo contrário, um proteccionista, novamente sob pressão do seu partido? Continuará a ter instintos multilateralistas fortes, ou será vulnerável ao unilateralismo quando for necessário, como aconteceu na Cimeira de Copenhaga em Dezembro? Honrará o Prémio Nobel da Paz, ou será obrigado a fazer guerras? Vai privilegiar os aliados ou os rivais?
Para ser justo com Obama, seria quase impossível ter escapado a estes dilemas e tensões. Por duas razões. Em primeiro lugar, porque é Presidente dos Estados Unidos, ainda a principal potência mundial, num momento de alterações profundas na ordem global. A mudança não se gere com certezas doutrinais mas com flexibilidade política. Em segundo lugar, herdou um legado terrível do seu antecessor. Duas guerras, conflitos regionais por resolver e, sobretudo, uma imagem negativa do seu país. Quando chegou à Casa Branca, Obama percebeu que o sucesso na defesa dos interesses americanos exigia uma nova imagem no mundo. Os Estados Unidos não podem ser uma força positiva na política mundial quando muitos (incluindo entre os seus aliados) os consideram uma ameaça à segurança internacional. E não é decisivo perceber se isso aconteceu justa ou injustamente. Em política, as percepções valem muito. Um ano depois, podemos dizer que os Estados Unidos recuperaram muito do seu crédito ideológico e diplomático. E isso deve-se, acima de tudo, a Obama.
Há, porém, dois problemas com a política de abertura ao mundo. Por um lado, reforçou a percepção de que "Bush era o principal problema", como afirmaram muitos. Bush regressaria ao Texas, e o mundo voltaria à harmonia dos anos de 1990. Obviamente, que nada disto aconteceu. Desde logo, porque a ‘harmonia' não era natural, mas sim resultado da diferença de poder entre os Estados Unidos e as outras grandes potências. Com o fim desse desequilíbrio de poder, aumentaram as complicações. Apesar de Bush ter regressado a casa, a China e a Rússia vão querer continuar a expandir o seu poder; e muitas vezes contra os interesses de Washington. Mesmo sem Bush, o Irão fará tudo para adquirir capacidade nuclear; contra a vontade de Obama. O terrorismo dos grupos radicais islâmicos começou antes e continuou depois de Bush, ameaçando a segurança dos norte-americanos. Não basta não ser Bush e ser Obama, para o mundo melhorar.
A constatação sobre o fim das ilusões leva-nos a um segundo ponto. Boa vontade e bons discursos não são suficientes para se ter uma política externa eficaz. Não é por isso que os outros países mudam os seus interesses. No contexto pós-Bush, eram necessários, mas agora é preciso mais. De certo modo, a política externa da administração Obama só vai começar este ano. Até agora, assistiu-se à reconciliação com o mundo. Em relação às outras grandes potências, a diplomacia americana continuará a oscilar entre o objectivo do concerto e a realidade da competição estratégica. Mas Obama irá certamente concluir que nem sempre é possível reconciliar interesses com competidores estratégicos.
Em princípio, os grandes testes à determinação e capacidade diplomática de Obama irão ocorrer no chamado ‘grande Médio Oriente'. Os três desafios centrais são o Iraque, o Irão e o Afeganistão/Paquistão. Com o tempo, o Iraque deixará de ser a "guerra de Bush" e poderá ainda (muito ironicamente) tornar-se num sucesso externo para Obama. Não será completamente inesperado, em 2012, assistir os democratas a vangloriarem-se de ‘terem ganho a paz no Iraque'. O caso do Irão será mais complicado. Até agora, as sanções não travaram o programa nuclear iraniano e, por outro lado, não há condições políticas para os Estados Unidos recorrerem à força contra o Irão. Numa reunião realizada recentemente em Bruxelas, alguém perguntou a um conselheiro de Obama que impacto um Irão nuclear teria nas próximas eleições presidenciais. A resposta foi um seco e preocupado, "não sei, mas não seria positivo". Por fim, o duplo problema ‘Afeganistão/Paquistão'. Mais uma caso em que é muito difícil prever o desfecho. Mas há um risco que atormenta Washington e as capitais europeias. A radicalização do Paquistão e a queda do actual regime, com a capacidade nuclear paquistanesa a cair nas mãos dos radicais islâmicos do país. Nesse caso, o Paquistão seria para Obama o que o Irão foi para Carter.
No meio de todos estes conflitos, mantém-se a ameaça do terrorismo islâmico. Após o falhado ataque de Detroit do passado dia 25 de Dezembro, um alto dirigente democrata, afirmou que "a presidência de Obama esteve a uma bomba de ter fracassado". O mesmo conselheiro referido em cima, a uma outra pergunta sobre o que aconteceria se houvesse um ataque terrorista aos Estados Unidos antes de 2012, colocou as mãos na cabeça e disse "a disaster". O facto do terrorista nigeriano ter apanhado o avião em Amesterdão leva-nos à relação transatlântica.

Obama e a Europa
Foi na Europa que a eleição de Obama criou as maiores ilusões. O resultado será um de dois. Ou o mandato de Obama será visto como o momento de renovação da relação transatlântica ou como um grande fracasso. As elevadas expectativas não permitem o meio termo. Um ano depois, não é possível disfarçar uma certa frustração, quer em Washington, quer nas principais capitais europeias. Os norte americanos não entendem verdadeiramente a União Europeia e queixam-se dos europeus por colocarem os processos à frente dos resultados. Os europeus consideram que Obama não é um "atlanticista genuíno", sendo antes um "Presidente do Pacífico". Para outros europeus, custa aceitar que um Presidente "tão multilateralista" privilegie as capitais nacionais em detrimento de Bruxelas.
Ambos os lados têm parte da razão. Mas há, no entanto, um problema mais profundo. A relação transatlântica continua a ser vista como um grande sucesso do passado, e não como uma grande oportunidade para o futuro. Em parte, esta visão tem a ver com uma certa preferência pelo multilateralismo que predomina hoje nos dois lados do Atlântico. Há mais tempo na Europa e desde que Obama foi eleito, os dois lados do Atlântico têm investido mais capital político e diplomático nas instituições globais e na diversificação de parcerias com outras grandes potências do que na relação transatlântica. Em ambos os casos, como reacção ao unilateralismo dos anos Bush. O último ano mostrou que a preferência pelo multilateralismo não é necessariamente o caminho para o reforço da relação transatlântica. Mais uma vez, a realidade acabará por se impor.
Quando se perceber que dificilmente se construirá uma ordem multilateral com potências expansionistas e nacionalistas, os dois lados do Atlântico olharão um para o outro de um modo mais estratégico. Entenderão que, na política internacional, não é possível fazer-se tudo; mas deve fazer-se o que é possível. A melhor notícia, após um ano na Casa Branca, foi a descida de Obama, do pedestral onde o colocaram, para o meio dos humanos. Esperemos que use agora os talentos que tem, não para inspirar (já chega de inspiração) mas para construir resultados e sucessos que possa apresentar daqui a três anos.