João Marques de Almeida

O Ocidente e o Haiti
Diário Económico, 1|Fevereiro|2010


A resposta ao terrível desastre no Haiti mostrou o humanitarismo dos europeus e dos norte-americanos.

Quando há tragédias desta dimensão, tal como aconteceu em 2006 no Paquistão, ou antes na Indonésia e na Turquia, os Estados Unidos e a Europa estão na linha da frente (muitas vezes sozinhos) a ajudar.
Invariavelmente, o grosso das ajudas financeiras chegam dos países ocidentais. Além disso, a disponibilidade, a prontidão e até a mobilização das sociedades europeias e norte-americana demonstram a incapacidade de sentir indiferença perante desastres humanitários em países terceiros. Se olharem com atenção para o que se passa no Haiti, os países mais pobres em todos os continentes do mundo sabem que, se passarem por uma situação trágica, terão a ajuda do Ocidente. Numa altura em que tanto se fala no declínio dos países ocidentais, há razões para sentir orgulho no nosso comportamento. E ninguém diga que há interesses estratégicos ou matérias-primas riquíssimas no Haiti. Assiste-se a uma ajuda desinteressada, de uma enorme solidariedade humanista.
O mundo pode ser multipolar em muitos aspectos, como muitas vozes europeias e norte-americanas não se cansam de referir, mas nas questões humanitárias continua a ser liderado por europeus e norte-americanos. Onde estão a China e a Rússia, quando há desastres humanitários? O Haiti demonstrou que de Pequim e de Moscovo, perante desastres humanitários, o mundo receberá indiferença e distanciamento. E não vale a pena usar o argumento da proximidade territorial do Haiti aos Estados Unidos ou das ligações históricas com um país europeu, a França. Quando ocorreram desastres no Paquistão e na Turquia, também foram os europeus e os norte-americanos que lideraram os esforços de ajuda.
A actuação no Haiti mostrou ainda a complementaridade de meios entre europeus e americanos. Se os Estados Unidos gozam de uma evidente superioridade em termos de meios militares e de transporte, em termos de capacidades civis e policiais (fundamentais para este tipo de desastres) a Europa é indispensável. A complementaridade de meios e a vocação humanitária de europeus e americanos sugere que seria possível começar a construir uma doutrina transatlântica de ajuda humanitária, que permitiria uma melhor e mais rápida articulação entre os dois lados do Atlântico em casos semelhantes no futuro.
No caso europeu, seria indispensável criar uma força humanitária europeia que associasse recursos civis, militares e policiais. Ainda em relação à resposta europeia, gostaria de fazer um último ponto. As críticas à actuação da Alta- Representante são de grande injustiça e revelam um enorme desconhecimento da realidade. Mostram apenas a vontade de encontrar pretextos para criticar. As mesmas pessoas que passaram quase dez anos a atacar Solana por estar sempre a viajar, criticaram agora Ashton por não ter ido ao Haiti, sem sequer se preocuparem em saber porquê. Está tudo dito.