João Marques de Almeida

Ideias ultrapassadas
Diário Económico, 18|Janeiro|2010

Na área do desenvolvimento, há quem continue a recorrer a noções ultrapassadas, como a distinção “Norte-Sul”, ou a expressão “irmã”, “Sul-Sul”. É como se o século XX continuasse a pensar o século XXI.

Em primeiro lugar, a diferença entre "Norte"e "Sul" não faz qualquer sentido no actual contexto da política internacional. É uma herança da Guerra Fria que não sobreviveu às profundas alterações que entretanto ocorreram.
O "Norte" referia-se à potência capitalista hegemónica, os Estados Unidos, e aos seus aliados. Num mundo cada vez mais multipolar, é um conceito ultrapassado. Deixou de haver razões estratégicas poderosas que justifiquem a ausência de potências como a China, a Índia ou o Brasil de um suposto "Norte". É simples: no mundo dos ‘Brics', deixou de haver "Norte". Numa ordem global, onde o G20 aumenta a sua importância, onde o G8, tendo em conta a posição da França (que terá a presidência em 2011) poderá estar a um passo de se tornar G13, com a inclusão da China, da Índia, do Brasil, da África do Sul e do México, não há lugar para o "Norte". Não deixa, aliás, de ser curioso que muitos que continuam a pensar em termos de "Norte-Sul" reconhecem ao mesmo tempo a emergência de um mundo multipolar. É uma contradição: o segundo acabou com o primeiro.
Se a divisão "Norte-Sul" está ultrapassada, por razões óbvias, passa-se o mesmo com o termo "Sul-Sul". Antes de mais, pressupõe uma homogeneidade que não existe. Nos supostos países do "Sul", há profundas diferenças políticas, culturais, religiosas e económicas que impedem a construção de uma categoria comum. Se nos quisermos limitar ao critério de desenvolvimento económico, então teremos de distinguir entre "economias emergentes" e "países em desenvolvimento". No século XXI, uma categoria que inclui países como a China e a Bolívia, a Índia e o Líbano, o Brasil e o Sudão não faz qualquer sentido. Governos, como por exemplo o de Pequim, continuam a defender o "Sul-Sul" simplesmente por razões políticas e para reforçar o seu poder. Mas o governo chinês não necessita, certamente, de ajudas alheias, de outras capitais.
Por fim, o termo "Sul" reforça percepções erradas. Por exemplo, olhar para África como o "Sul do Sul" não ajuda a perceber o desenvolvimento económico que tem ocorrido em grande parte do continente durante a última década. Se começarmos a entender os países africanos, não como um "Sul" dependente das ajudas do "Norte", mas como sociedades adultas, verdadeiramente independentes e que querem mais oportunidades e menos dependência, faremos um grande serviço ao desenvolvimento e ao progresso económico.