João Marques de Almeida

A Rússia de Putin
Diário Económico, 12|Dezembro|2009


O filósofo alemão Carl Schmitt disse um dia que os “vencedores não sentem curiosidade”. Especialmente, pelos derrotados. A frase de Schmitt ocorre-nos quando olhamos para o modo como os países europeus e os Estados Unidos discutem a política russa.

Os discursos tendem a concentrar-se em tudo o que falta à Rússia para ser como ‘nós'. Talvez fosse tempo de tentarmos ver a Rússia como ela é, e não apenas como gostaríamos que fosse. Se o fizermos, entendemos melhor o pensamento e o trajecto político de Vladimir Putin, e a sua popularidade entre os russos.

A transformação de Putin num líder russo
Como é conhecido, Putin fez grande parte da sua carreira profissional na antiga polícia de segurança da União Soviética, a famosa KGB. Alistou-se ainda como estudante de Direito na Universidade de Leninegrado, em 1975. Em 1985, foi colocado em Dresden, na antiga Alemanha de leste, onde assistiu directamente à derrocada do sistema comunista, com a queda do Muro de Berlim. Constituiu o primeiro grande choque político da sua vida. Muitos recordam frequentemente o momento em que Putin declarou que o colapso da União Soviética constituiu a maior tragédia da história da Rússia. Não o disse por ser comunista, mas por razões nacionalistas e, acima de tudo, de poder externo. Para Putin, o expansionismo imperial soviético foi o resultado da grandeza estratégica da Rússia.
Após o colapso da União Soviética, Putin foi chefe de gabinete do Presidente da Câmara de São Petersburgo, entre 1991 e 1996. Em 1996, mudou-se para Moscovo, passando a trabalhar no Kremlin. Liderou os serviços de segurança russos (sucessores da antiga KGB) entre 1998 e 1999, até ser nomeado Primeiro-Ministro em Agosto desse ano. Em Março de 2000, foi eleito Presidente da Rússia, cargo onde se manteve durante dois mandatos, até Março de 2008. Durante o mesmo ano, regressou ao ponto de partida do ciclo mais elevado do poder, voltando a ser Primeiro-Ministro após a vitória do seu partido, a Rússia Unida, nas eleições legislativas. Como pensa o líder que, segundo os seus defensores, recuperou o estatuto de grande potência mundial para a Rússia ou, segundo os seus detractores, iniciou uma "segunda Guerra Fria" na Europa?
Para entender a ascensão política de Putin, não nos podemos esquecer de dois dos grandes traumas sentidos pela maioria dos russos, e em particular pela sua geração. A estagnação dos anos de 1980 e, sobretudo, o colapso da União Soviética; e a ‘anarquia política' da década de 1990. Muitos analistas russos referem-se ao período entre 1980 e 2000 (ano em que Putin se tornou Presidente), como a "crise que durou vinte anos". Quando chegou ao Kremlin, a prioridade de Putin foi acabar com a anarquia na Rússia. Uma situação que resultava, em primeiro lugar, de um Estado fraco, desorganizado e corrupto. A segurança dos cerca de vinte milhões de russos que passaram a viver no "estrangeiro" após o fim da União Soviética constitui igualmente um desafio. Como disse um dia Putin, "o seu destino é uma questão de guerra ou paz". Ou seja, em 2000, Putin considerava-se o salvador da nação russa e o protector dos russos que habitavam o antigo espaço soviético.
Putin afirma frequentemente que um "Estado forte é fundamental para proteger a sociedade russa dos demónios da anarquia". A construção de um Estado russo forte apoiou-se no ressurgimento do nacionalismo russo. Os debates políticos na Rússia, os discursos dos seus governantes e o próprio comportamento público de Putin são dominados pela linguagem e pelas imagens do nacionalismo, com referências permanentes ao ‘excepcionalismo russo', à ‘identidade eslava', e ao papel unificador e redentor do ‘Cristianismo ortodoxo'.
No segundo mandato presidencial de Putin, de Março de 2004 a Março de 2008, assistiu-se, gradualmente, ao crescimento da autoridade do poder central; ao enfraquecimento do sistema multipartidário, com o domínio esmagador do partido nacionalista e ‘oficial' do regime; ao controlo da liberdade de imprensa e ao enfraquecimento da comunicação social independente. A doutrina oficial russa começava, simultaneamente, a desenvolver a definição de "democracia soberana": uma democracia ao serviço dos interesses nacionais, visando a construção de um Estado central forte e a expansão do poder externo da Rússia.

Como age a 'Rússia de Putin'
Além da anarquia interna, o declínio externo constituiu o outro grande trauma das últimas décadas para as elites russas. A Revolução laranja na Ucrânia representou um momento de viragem. As forças pró-democráticas e pró-ocidentais, apoiadas pela UE e pelos Estados Unidos, derrubaram o governo apoiado por Moscovo e chegaram ao poder. Para a maioria dos russos, a Ucrânia faz parte da Rússia. Como Putin disse ao Presidente George W. Bush, "a Ucrânia nem sequer é um país". Mais uma vez, a história forma as ideias de Putin. Ao contrário do que aconteceu, por exemplo, com os territórios bálticos, a ideologia imperial russa nunca tratou a Ucrânia como uma "aquisição imperial" mas como "terra russa".
A partir de 2004, Moscovo endureceu claramente a sua política externa. O momento revelador do pensamento estratégico russo ocorreu, em Fevereiro de 2007, quando Putin fez um discurso muito duro na Conferência de Segurança de Munique. No plano global, Putin atacou a tentação unipolar dos Estados Unidos, defendendo uma ordem multipolar, não só como a melhor forma da Rússia garantir a sua segurança, mas também como o caminho para recuperar plenamente o estatuto de grande potência. Ainda em relação a Washington, seria errado julgar que Moscovo procura o conflito com o seu antigo rival bipolar. Desde que o seu estatuto de igual seja reconhecido, a Rússia pretende cooperar com os norte-americanos; e procura uma relação bilateral sem intromissões da NATO ou da Europa. Uma relação directa serve igualmente outro objectivo estratégico: afastar os Estados Unidos da Europa. Putin gosta de recordar que a Rússia é "vizinha dos países europeus; mas entre a Europa e a América há um vasto oceano".
As elites políticas russas costumam afirmar que a "Rússia é um país europeu, mas não pertence ao Ocidente". O termo ‘Ocidente' não se refere unicamente à Aliança Atlântica e ao poder dos Estados Unidos. Refere-se, igualmente, a uma ordem europeia pós-nacionalista, composta por Estados que partilham a sua soberania e por instituições multilaterais, onde as identidades políticas e económicas internacionalistas, como a social-democracia, o liberalismo, a democracia-cristã são tão ou mais importantes do que o nacionalismo. Há, assim, na Europa de hoje um confronto de identidades diplomáticas e estratégicas. Por um lado, a ordem ‘ocidental' da UE representa uma ameaça à legitimidade política da Rússia de Putin. Por outro lado, o nacionalismo europeísta da Rússia ameaça igualmente os fundamentos da integração europeia.
A ‘Europa' proposta pela Rússia é diferente da ‘Europa' que produziu a EU, e está assente numa visão revisionista da ordem política europeia. Uma ordem diplomática assente na primazia dos interesses das grandes potências; numa hierarquização de Estados, de acordo com o seu poder; e no reconhecimento de esferas de influência, no interior das quais é legítimo usar a força militar para defender interesses vitais. Pode acontecer que, ao contrário da história dos países europeus, um Estado Hobbesiano não se queira tornar numa república Kantiana. E que veja mesmo alguns dos traços dessas repúblicas como "enigmas envoltos em mistérios", virando do avesso a definição de Churchill sobre a Rússia.