João Marques de Almeida

O Islão na Europa
Diário Económico, 7|Novembro|2009


Colunista no "Financial Times" e um dos editors do "Weekly Standard", Christopher Caldwell escreveu um livro oportuno e polémico sobre as minorias muçulmanas nos países europeus - "Reflexões sobre a Revolução na Europa: Pode a Europa ser a mesma com pessoas diferentes?" ["Reflections on the Revolution in Europe: Can Europe be the Same with Different People in It?"] Oportuno porque trata de um tema da maior actualidade para a Europa, e fá-lo de um modo competente, corajoso e interessante. Polémico porque o autor desenvolve argumentos fortes, desassombrados e, alguns deles, bastante discutíveis.

Imigração
A primeira parte do livro aborda a questão da imigração, respondendo a duas questões: por que razão a Europa necessita da imigração? E que tipo de imigração existe na Europa? No caso da primeira pergunta, Caldwell discute os dois argumentos mais comuns, os quais partilham uma perspectiva economicista. O "argumento capitalista" afirma que a imigração é indispensável para o crescimento económico dos países europeus. Fazendo os trabalhos que "os europeus não querem", os imigrantes "salvam as indústrias moribundas". O "argumento socialista" afirma que os imigrantes são necessários para preservar o Estado-providência e o "modelo social europeu".
O autor critica ambos os argumentos. Por um lado, considera o "argumento capitalista" errado no sentido em que confunde causas com efeitos. Utiliza como exemplo a construção civil, área em que existe uma elevada mão-de-obra imigrante. Olhando para o que aconteceu nos últimos anos em Espanha, conclui que a imigração foi resultado, e não a causa, do crescimento económico. A imigração não evitou a crise do sector imobiliário e muitos dos imigrantes estão precisamente a abandonar Espanha como resultado do abrandamento da economia.
Por outro lado, o "argumento socialista" ignora factos relevantes. O autor parte de uma premissa simples: os imigrantes contribuiriam para o "modelo social europeu" se pagassem mais do que recebem. Ora, na realidade, segundo os dados apresentados pelo autor, passa-se o oposto. Na maioria dos países europeus, nas últimas duas décadas, a população imigrante tem aumentado muito mais do que a população imigrante empregada. Ou seja, a maioria dos imigrantes não tem chegado à Europa por razões profissionais, mas por vários outros motivos: reunificação familiar, asilo, refúgio ou por razões humanitárias.
Além dos argumentos económicos e sociais, o autor considera que os responsáveis europeus não têm dado a devida importância às questões culturais e de identidade. Aqui, o autor clarifica uma distinção fundamental: o livro trata dos imigrantes muçulmanos e não da questão da imigração em geral. Para justificar esta escolha, introduz duas dificuldades essenciais. A dificuldade histórica que a maioria das populações europeias tem em relação ao "Islão" (o que agrava a relutância tradicional que existe em relação à imigração em geral). E a dificuldade que os imigrantes muçulmanos sentem em relação aos valores e aos comportamentos que identificam as sociedades europeias. Recorre a um exemplo simples mas poderoso (e sem fazer julgamentos morais): enquanto as sociedades europeias reforçam a sua natureza secular, os imigrantes muçulmanos tornam-se mais religiosos.
No início do século XXI, existem entre 15 a 17 milhões de muçulmanos na Europa. Uma larga parte não quer pensar nem comportar-se como os europeus. Pior do que isso, muitos deles desenvolvem as suas identidades religiosas e políticas em oposição à ‘Europa'. Não se passa o mesmo com nenhum outro grupo de imigrantes.

A Europa e o Islão
Dos cerca de 15 milhões de muçulmanos que vivem na Europa, a maioria está concentrada nos três maiores países europeus: 5 milhões em França, 4 milhões na Alemanha e 2 milhões no Reino Unido. São sobejamente conhecidos os problemas que existem com estas comunidades, desde actos de violência até elevados níveis de delinquência. O que é relativamente novo é a dimensão política e ideológica do islamismo na Europa. O autor descobre uma contradição na atitude europeia perante esta novidade. Por um lado, começa a surgir a consciência em relação à ameaça que o islamismo político representa não só para os valores fundamentais europeus como, nos casos mais extremos, para a própria segurança das populações europeias (incluindo os cidadãos muçulmanos). Os ataques terroristas em Madrid e em Londres, o assassinato de Theo Van Gogh em Amesterdão, manifestações de intolerância cultural e de recusa da liberdade de imprensa, como no caso das caricaturas dinamarquesas, conotaram de um modo muito negativo o islamismo político aos olhos da maioria dos europeus. Por exemplo, em 2004, num estudo de opinião em França, 66% dos inquiridos confessaram ter uma opinião "negativa" sobre o "Islão". Num outro inquérito, agora na Alemanha, efectuado em 2007, foi colocada a seguinte questão: "que tipo de associação faz ao islamismo?" 93% respondeu, "opressão das mulheres"; 83% respondeu "terrorismo" e 82% respondeu "radicalismo".
Por outro lado, apesar da crescente consciência sobre a natureza radical do islamismo político, as elites públicas europeias demonstram uma enorme dificuldade em entender o islamismo político como uma ideologia totalitária. Caldwell atribui essa relutância a duas razões. Em primeiro lugar, porque o totalitarismo é associado a um passado, considerado definitivamente enterrado pela historiografia dominante. Reconhecer um fenómeno político totalitário na Europa no início do século XXI significaria colocar em dúvida os progressos das últimas seis décadas. Em segundo lugar, em parte como resultado da culpa do passado colonial, as elites intelectuais europeias resistem a fazer certos julgamentos sobre movimentos de origem não-europeia.
O autor faz um excelente trabalho de desconstrução das tendências "politicamente correctas" que rejeitam tratar o islamismo radical como uma ideologia totalitária. Enfrentar a verdade com coragem constitui sempre uma virtude. A existência de movimentos e grupos políticos e religiosos na Europa que rejeitam valores centrais como a liberdade de opinião, a igualdade entre géneros e a superioridade do conhecimento cientifico e da crítica racional sobre os dogmas religiosos constitui um problema que não pode ser ignorado. O que o autor chama de "espaços de sharia" e de "cultura de jihad" são fenómenos que existem na Europa e a recusa da realidade só agravará os problemas.
De certo modo, o livro sofre dos defeitos das suas virtudes. Se a sua grande virtude é enfrentar a verdade inconveniente do radicalismo islâmico na Europa, o autor tende a identificar o "Islão" em geral com o islamismo radical. Esta identificação não só é falsa como é demasiada perigosa. O aparecimento de uma espécie de ‘ódio ao muçulmano' na Europa seria trágico. É fundamental dizer que a maioria dos cidadãos muçulmanos não se identifica com o radicalismo islâmico.
A incapacidade de distinguir os muçulmanos do islamismo político explica, em parte, outro problema do livro. Se o radicalismo islâmico constitui uma questão crucial para o futuro da Europa, será então essencial discutir o modo de lidar com essa ameaça. O autor não o faz. Esta lacuna é ainda mais estranha se nos recordarmos que Caldwell foi (e provavelmente ainda é) partidário da estratégia de democratização do Médio Oriente. Tão ou mais importante será democratizar aqueles que se sentem atraídos pelo canto totalitário do islamismo radical no início do século XXI na Europa. Mais do que ninguém, os europeus sabem como é que normalmente acabam estas tentações.