João Marques de Almeida

"Onde estão os votos?"
Diário Económico, 22|Junho|2009

Há dois tipos de democracias. Aquelas onde quem conta é quem vota, e aquelas onde quem conta são os que contam os votos.

Como disse um dia um dos grandes "mestres" do segundo tipo de democracia, Stalin: "não é quem vota que conta, mas quem conta os votos". Parece que o regime iraniano aprendeu as lições do antigo líder soviético. Os acontecimentos no Irão mostram igualmente as tensões entre dois tipos de soberania: a soberania divina e a soberania popular. Quando as duas entram em conflito, aparentemente, prevalece a primeira.

A questão é mais complicada e profunda do que a simples oposição entre o ditador Ahmadinejad e o "democrata" Moussavi. Mais do que uma luta entre defensores do regime e um movimento pró-democracia multipartidária, estamos a assistir a um confronto entre facções no interior do regime. Moussavi é originário do interior do regime, era próximo de Khomeiny e foi primeiro-ministro iraniano durante a guerra contra o Iraque, entre 1980 e 1988. De certo modo, esta facção "reformista" pretende salvar o regime, imposto pela Revolução de 1979. Percebeu que a grave situação económica do país, a corrupção generalizada e a política externa expansionista ameaçam, a prazo, a sobrevivência do regime.

Esta dimensão interna justifica, em parte, a prudência da administração norte-americana e dos governos europeus (os quais, apesar de tudo, têm sido críticos em relação ao uso da força contra os manifestantes). Além disso, as lições do Iraque demonstram que as interferências externas nos processos de transformações políticas devem ser prudentes. No entanto, devemos distinguir o conflito entre as facções dos protestos populares. Além da disputa no interior do regime, estamos a assistir a um confronto bem mais profundo na sociedade iraniana.

As gerações mais novas, educadas e urbanas estão saturadas do regime. É necessário recordar um dado crucial: 70% da população do Irão tem menos de 30 anos. É a geração da ‘net', dos ‘blogues' e dos ‘facebooks'. As elites teocráticas e políticas lutam contra o mundo e, particularmente, contra o Ocidente. Mas os jovens estão "ligados" ao mundo e, especialmente, ao Ocidente. Querem, contudo, que essa abertura vá além das redes informáticas. Querem ler os livros e ouvir a música de que gostam livremente; querem viajar; querem ter mais oportunidades. Em suma, querem ser livres. E não há nada mais poderoso do que milhões de pessoas a lutar pela liberdade.