João Marques de Almeida

As grandes simplificações
Diário Económico, 25|Maio|2009

A responsabilidade do “neo-liberalismo” pela crise económica é a última das grandes simplificações da maioria dos nossos analistas.

Claro que muitos deles não estão a escrever sobre a crise, mas sobre as suas obsessões ideológicas. Atacaram sempre o "neo-liberalismo" e agora aproveitam uma crise económica global para mostrar que tinham razão. A validade das suas posições ideológicas, e não a crise económica, é o que verdadeiramente os interessa. Quanto à suposta "morte" do "neo-liberalismo", ainda não entenderam que as grandes ideologias modernas não morrem facilmente. Se o fim da antiga União Soviética não acabou com o socialismo marxista, não será uma crise económica a terminar com o "neo-liberalismo". Enquanto existir capitalismo, haverá liberalismo.

Mais grave, os ataques ao "neo-liberalismo" não nos ajudam a entender as principais consequências da crise. A necessidade de melhor regulação e supervisão financeira, embora sendo importante, não constitui a solução para os grandes problemas económicos e sociais de Portugal e dos países europeus em geral. Com uma nova distribuição do poder económico global, conseguirão os governos europeus manter as regalias políticas, económicas e sociais dos seus cidadãos? Esta é a questão crucial.

No meio de muitas dúvidas, há algumas certezas. Estamos a assistir a uma transferência da produção de riqueza do ocidente para a Ásia. A competição económica global é mais exigente. Os cidadãos europeus estão habituados a um nível de justiça social superior ao do resto do mundo, o que torna a concorrência mais difícil. A maioria dos Estados europeus encontra-se altamente endividada. Num cenário de menor crescimento económico e de mais dívidas, até os maiores críticos do "neo-liberalismo" entendem que a intervenção do Estado deve ser criteriosa. Não é uma posição ideológica; é uma questão de sensatez e de necessidade.

Na Europa, em geral, espera-se o seguinte dos Estados: a preservação da liberdade, da ordem e da segurança; a educação dos cidadãos desde os 6 anos até à conclusão da universidade; a saúde dos cidadãos; a segurança social dos reformados; a ajuda aos desempregados; a construção de grandes obras públicas; a acção empresarial e financeira em sectores económicos vitais; políticas culturais; posse e gestão de meios de comunicação, e muitas outras actividades.

Pergunto a todos os críticos do "neo-liberalismo" se acham honestamente que num mundo mais competitivo, mais igual, onde o ocidente já não manda, será possível preservar todas aquelas funções? Se julgam que sim, digam como e deixam de atacar o "neo-liberalismo". Os portugueses, incluindo os liberais, ficarão extremamente agradecidos.