João Marques de Almeida

Epidemia nas cabeças
Diário Económico, 18|Maio|2009

A grande notícia deste fim-de-semana foi uma não-notícia. Li todos os jornais e não encontrei nada sobre a famosa “gripe suína”.

Lembram-se? Há semanas não havia jornal, revista ou notícias na televisão que não falasse da "epidemia". Faziam-se previsões sobre "centenas de milhares" de mortes, ou mesmo "milhões". As ruas da cidade do México ficaram desertas durante dois fins-de-semana e cheias de pessoas com máscaras nos dias de semana. Um responsável informou que já havia máscaras disponíveis no nosso país. Discutiu-se com grande alarme se as vacinas chegariam para todos ou se só estariam disponíveis para quem ocupa lugares de interesse nacional. Realizou-se uma reunião de emergência dos ministros da saúde dos Estados Membros da União e um dos governos até sugeriu que se fechasse as fronteiras europeias a quem viesse dos países mais afectados pela "epidemia".

Duas semanas depois, nem uma notícia. De duas uma. Ou ocorreu um milagre e, subitamente, a "epidemia" desapareceu. Ou nunca houve "epidemia" alguma, mas apenas um surto forte de um novo tipo de gripe que matou dezenas de pessoas (quase todas num único país, o México). Como não acredito em milagres, inclino-me para a segunda hipótese. O que se passa? Estará o mundo à beira da loucura? Este alarmismo irracional, o medo do "estrangeiro" e da vida sugerem uma espécie de cultura neo-medieval em que está tudo à espera da explosão de desgraças naturais, epidémicas ou climáticas. O que aconteceu nas últimas semanas não foi uma "epidemia", mas sim a demonstração de que quase toda a gente considera que uma epidemia global é inevitável a prazo. No meio do histerismo, um português chamou a minha atenção. Preparava-se para apanhar o avião para o México e perante a incredulidade de um bando de jornalistas, disse simplesmente: "claro que vou, quero ir para a praia". Um ser simplesmente racional perante as vozes da loucura colectiva.

Além dos sintomas negativos sobre a saúde mental do mundo em geral, houve mais dois sinais preocupantes. Em primeiro lugar, o modo como muitos agentes do poder político aproveitam imediatamente um episódio de "epidemia" ou de "crise" para tentar reforçar os seus poderes. As Nações Unidas e a Organização Mundial de Saúde apresentaram logo planos de regulação e de intervenção global. No século XIX, as guerras constituíam uma fonte de poder; no século XXI, é a saúde pública. Em segundo lugar, o profundo sentimento anti-globalização que prevalece nos dias que correm. Desta vez, a "epidemia" como mais uma manifestação do lado negro da globalização que nos "ameaça" a todos os níveis. Às "doenças" da globalização só a "saúde" das nações poderá resistir. Pode parecer brincadeira, mas não é.