João Marques de Almeida

Capitalismo global
Diário Económico, 4|Maio|2009

Uma das narrativas que explicam a crise diz-nos que o capitalismo fracassou e que, por isso, é necessário mais intervenção do Estado. Esta interpretação é prematura.

Resulta mais de dogmas ideológicos do que uma apreciação correcta da realidade. Apesar de ser ainda demasiado cedo para se retirar conclusões definitivas, podemos desde já sublinhar alguns pontos importantes. A regulação e a supervisão falharam.

Por isso, é agora necessário corrigir esses falhanços, e é o que está a ser feito nos planos europeu e global. Convém, no entanto, sublinhar que o fracasso da regulação não é um problema inerente ao capitalismo, mas o resultado de comportamentos das autoridades políticas. Se estudarmos a história do crescimento do capitalismo, percebemos que mercado e direito andaram sempre de mãos dadas. A defesa da economia de mercado resulta, na sua origem, do respeito por um direito individual fundamental: o direito à propriedade. É a partir daqui que se desenvolve a economia capitalista e se constrói toda a ordem jurídica que a regula. O grande problema dos últimos anos foi a incapacidade da ordem jurídica para acompanhar o crescimento dos mercados.

Alguns afirmam que não existiu incapacidade mas antes falta de vontade dos governos, por motivos ideológicos. É aqui que surge o ataque ao "neo-liberalismo". Se este argumento for verdadeiro, então terá que se reconhecer que o "consenso neo-liberal" foi comum ao centro-direita e ao centro-esquerda dos países ocidentais.

Ambas as famílias políticas estiveram no poder durante os últimos anos. Este argumento encontra, porém, um problema sério: o suposto "consenso neo-liberal" nunca existiu. Os partidos socialistas do sul da Europa e os partidos sociais-democratas do norte da Europa nunca aceitaram o consenso. E mesmo os partidos democrata- -cristãos mostraram sempre algumas reservas.

Se a ausência de regulação adequada não resultou de convicções ideológicas, como se explica então? De um modo simples: a escassa regulação serviu os interesses dos governos ocidentais, independentemente da sua orientação política. Desde o final da década de 1980, que a maioria das pessoas informadas sabia que estávamos a viver numa ilusão colectiva. O "nosso mundo" de crescimento económico permanente e de cada vez mais regalias sociais não resistiria ao aumento de poder do resto do mundo.

Tinha sido possível dada a nossa posição privilegiada na política mundial. A expansão do capitalismo financeiro nas últimas duas décadas permitiu que o modelo social europeu vivesse a crédito, mantendo-se assim, artificialmente, as expectativas económicas e sociais das nossas populações. A crise marca o fim desse mundo e o início do capitalismo global do século XXI. As políticas da década de 1970 só servirão para agravar os problemas.