João Marques de Almeida

Retrocesso na liberdade
Diário Económico, 27|Abril|2009

Salman Rushdie publicou os “Versos Satânicos” há vinte anos. Os líderes religiosos do Irão consideraram que o livro ofendia o Islão e condenaram-no à morte.

Muçulmanos britânicos queimaram cópias da obra em fogueiras públicas. No entanto, as elites políticas, intelectuais e os meios de comunicação ocidentais defenderam o escritor, mostrando a sua perplexidade e indignação. Não passou pela cabeça de algum ocidental condenar Rushdie ou o livro.

Quase duas décadas depois, em 2005, muitas vozes nos mesmos países ocidentais condenaram os jornais dinamarqueses por publicarem as caricaturas de Maomé. O governo turco quis impedir o então Primeiro Ministro dinamarquês de ser escolhido para Secretário Geral da NATO, simplesmente por não ter criticado a liberdade de imprensa dos jornais do seu país. No ano passado, uma das maiores editoras norte americanas, a Random House, não publicou um manuscrito por, na opinião de um académico, ser "ofensivo" para a religião muçulmana. Em 2009, os autores ocidentais são menos livres e têm mais medo do que em 1989. Cito (sem traduzir) o que disse recentemente um outro escritor britânico muçulmano, Hanif Kureishi: "nobody would have the balls today to write The Satanic Verses, let alone publish it".

Na mesma linha, no passado mês de Março, o Conselho dos "Direitos Humanos" da ONU (coloco as aspas porque, para vergonha do mundo, é composto por vários países cujos governos violam sistematicamente os direitos humanos fundamentais para qualquer cidadão livre), adoptou um Resolução que define a "difamação religiosa" como uma "violação" da "liberdade" dos crentes. Ou seja, um Conselho das Nações Unidas, supostamente uma organização secular, considera a liberdade de opinião, nos casos em que é dirigida contra uma religião, como blasfémia. Qualquer pessoa que, em 1989 no mundo ocidental, defendesse isto seria considerada ou louca ou fascista.

Em 2009, o Paquistão, a Bielorússia e a Venezuela, como o apoio da Arábia Saudita e do Egipto, promovem uma iniciativa contra a liberdade de opinião e o facto é praticamente ignorado no Ocidente. Eis um exemplo em como a nova distribuição do poder global começa a ameaçar os valores centrais das nossas sociedades. Um dia, aqueles que prezam verdadeiramente a liberdade, vão recordar-se do que dizia um antigo Presidente dos EUA (um certo George W. Bush): "é necessário preservar um equilíbrio de poder que defenda a liberdade". Mesmo sob ameaça, Rushdie ainda a gozou.