João Marques de Almeida

Dia da Liberdade
Diário Económico, 20|Abril|2009

No final da semana, celebramos 35 anos de liberdade em Portugal. Uma boa altura para se olhar com alguma distância para o que se passa no país.

Todos sabemos, e tem sido repetido por vários responsáveis, que atravessamos uma crise profunda e muito difícil. Além disso, existem problemas estruturais que não foram resolvidos nas últimas três décadas e meia, e que dificultarão a resposta à crise. Tendo principalmente em conta o facto das oportunidades abertas pela integração europeia terem sido desperdiçadas em muitas áreas, entende-se algumas das frustrações sentidas pelos portugueses.

No entanto, a crise não deve fazer esquecer tudo o que conquistámos. Portugal é um país muito diferente daquele que existia em 1974. O sistema político não é perfeito, mas vivemos em liberdade. Lemos os livros, ouvimos a música, vemos os filmes e podemos escrever o que queremos. Bem melhor do que se passou com os nossos pais e avós. Não somos tão prósperos como gostaríamos, mas vivemos muito melhor do que se vivia antes da década de 1970. Acima de tudo, a economia é mais aberta, há mais oportunidades e mais justiça e mobilidade social. Todos nós observamos e testemunhamos coisas de que não gostamos, que nos irritam mesmo, e em alguns casos indignam. Mas tudo isto é sinal de uma sociedade livre e aberta, onde há debates, conflitos e oposições. Ainda bem que é assim. Se alguma coisa me desagrada é o excesso de conformismo que ainda persiste.

A democracia é antes de mais um modo de vida pluralista. Onde os cidadãos têm a liberdade para, respeitando naturalmente certos limites, escolherem a vida que querem viver. E respeitar as liberdades e preferências dos outros. Nas sociedades democráticas, a tolerância é certamente um dos valores mais importantes.

Atravessamos uma crise, mas vivemos em liberdade. Nunca devemos esquecer esta verdade. É essencial perceber o elementar, para rejeitar os argumentos que surgem nestas alturas a atacar tudo o que foi feito nos últimos anos e a propor "novos começos". A crise não nos deve levar a ignorar tudo o que foi conquistado, e tudo o que deve ser preservado. Por outro lado, é vital adoptar a atitude correcta perante as dificuldades. Nos últimos anos, começou a acreditar-se que tudo seria fácil e possível, que não haveria limites aos nossos desejos. Foi esta ilusão que acabou. Ainda bem. Agora, será possível enfrentar as dificuldades, com naturalidade, sabendo ao mesmo tempo que a nossa sociedade tem muitas coisas boas que devem ser preservadas.

A crise será difícil, mas não constitui o fim do "nosso mundo". Aquele que começou a ser construído em 1974.